Rejane Faria estreia como protagonista em cinema aos 65 anos em Yellow Cake, novo longa de Tiago Melo que abriu a 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Depois de mais de duas décadas de carreira como atriz em televisão e cinema, a atriz agora enfrenta o desafio de levar nas costas a narrativa de um filme que mistura ficção científica, política de gênero e questões sobre representação de mulheres negras em posições de poder.
No filme, Rúbia é uma cientista nuclear que chega a Picuí, no sertão da Paraíba, para mediar a relação entre pesquisadores norte-americanos e moradores locais enquanto trabalham na exploração de reservas de urânio com objetivo de desenvolver uma solução para o combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue. O papel é uma virada no padrão de personagens que Rejane construiu em décadas de trabalho.
Como foi viver a primeira protagonista de cinema aos 65 anos?
Rejane conta que a experiência anterior em “Marte Um” a colocou em um “lugar de protagonismo coletivo” e ela trouxe esse pensamento para Yellow Cake. Apesar de Rúbia ser a personagem que conta a história, a atriz não se sentiu isolada na responsabilidade: “Apesar de a Rúbia ser a pessoa que conta essa história, eu contei com todo o elenco para que essa história tivesse um peso. Eu não me senti, em momento algum, sendo a pessoa que estava levando aquela história, e isso facilitou muito para mim”, explica.
A liberdade que o diretor Tiago Melo ofereceu foi fundamental. “É evidente que a gente sente uma responsabilidade maior. Você quer atender às expectativas do diretor, mas o Tiago me deixou muito à vontade”, comenta. Como não tinha repertório em ficção científica – gênero que ela nunca havia explorado profundamente –, o diretor sugeriu filmes e textos para que Rejane se aproximasse dessa linguagem antes das gravações.
Por que um papel assim importa para a representação de mulheres negras?
Para Rejane, viver uma mulher negra em posição de liderança – coordenando uma equipe majoritariamente composta por homens brancos e estrangeiros – vai além do cinema. É uma oportunidade de expandir a discussão sobre lugares que mulheres negras ocupam (ou deixam de ocupar) na sociedade. “Por que nós, mulheres pretas, temos mais dificuldade de ascensão? Quando vem um filme me dá essa possibilidade de ser uma mulher negra com poder, uma mulher LGBTQ+, coordenando uma equipe de homens estrangeiros… Isso me faz ter mais desejo de fazer e mostrar que essas situações são possíveis”, afirma.
A atriz não romantiza a realidade: reconhece que preconceitos estruturais atravessam cotidianamente as discussões sobre salários iguais e ocupação de cargos. Mas vê em Yellow Cake uma chance de oferecer ao espectador um olhar diferenciado sobre essas questões. “É necessário que a gente ocupe cargos, que a gente tenha salários iguais e todas essas questões que nós já sabemos, mas que, infelizmente, são sempre atravessadas por preconceitos estruturais. Então, acho que [Yellow Cake] é uma oportunidade incrível.”
Como Rejane levou sua própria experiência para o personagem?
O desfecho de Yellow Cake marca uma virada importante: Rúbia, ignorada e negligenciada por seus colegas mesmo em posição de chefia, precisa se desdobrar e colocar a própria vida em risco para encontrar uma solução. A fúria que move a personagem nesse momento vem de um lugar muito pessoal em Rejane. “Por mais que eu esteja insegura, por mais que eu tenha receios, eu sempre me posiciono de uma forma muito firme nas coisas que eu desejo. Porque eu acho que tem que ser assim”, comenta.
Rejane fala sobre a realidade de sofrer opressão cotidiana – pelo olhar, pela escassez de oportunidade, pelo comportamento da sociedade – e transformar isso em força. “Deixar para chorar em casa. Aqui você tem que enfrentar e fazer o papel mesmo de ir avançando, de ir largando essas pessoas que ainda conseguem pensar de forma diferente para trás”, afirma. Para ela, Rúbia “não pode abaixar a cabeça, principalmente porque ali, para além disso, ela ainda estava certa.”
Fonte: rollingstone.com.br

