Indio Solari morre aos 77 anos e deixa vazio no rock argentino

Indio Solari, ícone absoluto do rock argentino e líder dos Redonditos de Ricota, morreu nesta sexta-feira (5) aos 77 anos. Encontrado próximo à piscina coberta de sua residência em Ituzaingó, região metropolitana de Buenos Aires, o artista deixa um legado que transcende a música: uma obra que funcionou como coluna vertebral da contracultura argentina durante décadas. A morte chega após mais de uma década convivendo com Parkinson, doença que revelou publicamente em 2016 durante um show memorável.

Por que a morte de Indio Solari marca tanto a Argentina?

Solari nunca foi apenas um cantor. Para gerações de argentinos, suas letras enigmáticas e repletas de metáforas funcionaram como bússola moral durante os períodos mais turbulentos do país. Enquanto a Argentina atravessava a transição pós-ditadura militar e enfrentava as políticas neoliberais dos anos 1990, as músicas dos Redonditos ecoavam nas ruas como crítica contundente ao consumismo, às desigualdades sociais e à submissão às potências estrangeiras.

Centenas de fãs se reuniram em praças de Buenos Aires já nas primeiras horas após o anúncio da morte, entoando sucessos da banda e levando flores e camisetas com seu apelido. A Associação Argentina de Futebol destacou que sua voz se tornou um dos grandes cânticos populares do país, frequentemente entoado nas arquibancadas. As Avós da Praça de Maio, organização que lutou pelos direitos humanos durante a ditadura, reforçaram que Solari inspirou gerações a questionar a realidade.

Qual foi o impacto dos Redonditos de Ricota na música argentina?

Durante mais de duas décadas liderando a banda, Solari construiu uma carreira marcada por uma decisão rara no mercado fonográfico: recusou contratos com grandes gravadoras para manter total controle criativo. Os Redonditos de Ricota, popularmente conhecidos como “Los Redondos”, lançaram dez álbuns de estúdio que se tornaram fenômeno cultural, atraindo multidões para shows que funcionavam quase como rituais religiosos.

A banda se dissolveu em 2001, momento em que a Argentina enfrentava uma crise econômica devastadora. Solari então iniciou carreira solo, misturando rock tradicional com elementos eletrônicos, mantendo público robusto em estádios e parques por todo o país. Essa continuidade demonstrava que seu apelo transcendia a formação original: tratava-se de um vínculo espiritual com o público, construído ao longo de décadas.

Como Solari lidou com o Parkinson em seus últimos anos?

Em 2016, durante um show diante de multidão, Solari revelou publicamente o diagnóstico de Parkinson. Sua frase naquele momento capturou a essência de sua personagem: “O senhor Parkinson está mordendo meus calcanhares. Mas aqui estou eu”. A plateia respondeu com uma das maiores ovações de sua carreira — um reconhecimento não apenas do artista, mas da luta de um homem contra uma doença degenerativa.

Nos anos seguintes, afastou-se gradualmente dos palcos mas continuou falando abertamente sobre os desafios impostos pelo Parkinson. Esse processo de retirada foi acompanhado por seus fãs com respeito e melancolia. Para muitos, a ausência de Solari nos palcos representava o fim de uma era, embora sua obra permanecesse viva nas ruas da Argentina.

Qual é o legado que Indio Solari deixa?

A ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner resumiu em poucas palavras a dimensão de Solari ao citar um de seus versos mais famosos nas redes sociais: “Só viver já custa a vida”. Essa frase encapsula a filosofia que permeou sua obra — uma reflexão desencantada e crítica sobre a existência sob estruturas opressivas.

Solari deixa a esposa Virginia Mones Ruiz e o filho Bruno, de 25 anos. Seu velório foi aberto ao público, permitindo que admiradores prestassem suas últimas homenagens pessoalmente. Mas seu verdadeiro monumento não está em nenhum lugar físico: está nas letras que continuarão sendo cantadas nas ruas de Buenos Aires, nas camisetas estampadas com seu rosto, nas vozes dos que cresceram com sua música. Indio Solari foi mais que um músico — foi um símbolo de que a arte pode resistir, questionar e permanecer viva mesmo quando o corpo cede.

Fonte: rollingstone.com.br

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