Harry Styles homenageia David Hockney e reencontra One Direction em estreia em Wembley

Harry Styles inaugurou sua residência de 12 shows no Estádio de Wembley em Londres na noite desta sexta, 12, quebrando o recorde anterior de maior número de apresentações consecutivas no local. Mas o que transformou o show inaugural em algo além de um concerto comum foi a decisão de entrelaçar duas narrativas aparentemente distantes: a morte do pintor britânico David Hockney, ocorrida na véspera, e os 16 anos desde que Styles entrou para o One Direction em uma audição do X Factor a poucos quilômetros dali.

Quando a morte de um artista toca a narrativa de um show de pop

A homenagem a David Hockney, figura monumental da Pop Art do século XX, não foi apenas um gesto decorativo. Styles exibiu nos telões uma citação do pintor que capturava a essência do que o próprio artista tentava fazer naquela noite: “O que um artista tenta fazer pelas pessoas é aproximá-las de algo, porque, é claro, a arte é sobre compartilhar. Você não seria um artista se não quisesse compartilhar uma experiência, um pensamento.” A escolha funcionou como moldura conceitual para o que viria depois – um passeio nostálgico que, diferentemente de muitos artistas que tratam seu passado em bandas como algo sepultado, Styles abraçou como extensão natural de sua trajetória.

Isso importa porque marca um ponto de inflexão na forma como Styles se relaciona com One Direction publicamente. Durante anos, após a pausa do grupo em 2016, ele construiu uma carreira solo deliberadamente distante da imagem de boyband. O novo álbum Kiss Me All The Time. Disco Occasionally, que alimenta a turnê Together, Together, consolida um Styles mais experimental e introspectivo. Trazer o One Direction de volta ao palco não era, portanto, uma concessão nostálgica – era um ato de reconciliação.

O espaço físico como personagem na história pessoal

Quando Styles falou sobre o Wembley, não mencionou apenas o estádio onde agora fazia história. Ele se referiu à Wembley Arena, o edifício ao lado, onde auditou para o X Factor 16 anos atrás. “Bem aqui fora, ao lado, fica a Wembley Arena, e há 16 anos, minha irmã me trouxe a Londres pela primeira vez para a minha audição no X Factor. Então, dirigir até aqui hoje, e sempre que passo por Wembley, significa muito para mim, porque bem ali naquele prédio ao lado, eu entrei para uma banda.” O comentário transformou o concerto em cartografia emocional – cada quarteirão de Londres carregando peso narrativo.

Essa estratégia funcionou porque evitou o clichê da nostalgia genérica. Styles não pediu ao público para “lembrar dos velhos tempos”. Em vez disso, ele mapeou concretamente como aquele lugar específico havia moldado sua vida, mencionando até detalhes como uma visita ao Museu de História Natural com a irmã Gemma. O reconhecimento público à mãe, que o inscreveu no X Factor sem que ele soubesse, e à irmã, que o acompanhou durante esses 16 anos, ancorou o discurso em relacionamentos reais em vez de abstrações sobre fama ou gratidão genérica.

As escolhas do repertório como declaração de maturidade artística

O setlist da noite revelou um artista em negociação constante com seu próprio legado. Styles abriu com “Are You Listening Yet?”, do álbum mais recente, sinalizando que o novo material é o centro gravitacional desta residência. Mas a inclusão de trechos do One Direction – “Night Changes” e “History” tocadas pela banda após “Fine Line” – funcionava como um parêntese contextual, não como o ponto principal.

O que chamou atenção, porém, foi a engenhosidade nas interpolações: “Taste Back” ganhou um trecho de “Born Slippy” do Underworld; “Treat People With Kindness” incorporou “This Must Be The Place” do Talking Heads; “Dance No More” se fundiu com “Step On” do Happy Mondays e “Clint Eastwood” do Gorillaz. Essas escolhas revelam um artista que não vê a música como gêneros isolados, mas como um continuum onde pop, eletrônico, post-punk e indie coexistem. É um repertório que desafia qualquer expectativa simples sobre quem Harry Styles é agora.

O recorde, a caridade e a duração do impacto

Com 12 shows confirmados, Styles quebrou o recorde anterior de 10 apresentações, que pertencia ao Coldplay durante a turnê Music Of The Spheres. A diferença pode parecer numérica, mas marca a diferença entre uma turnê bem-sucedida e uma residência que redefine expectativas de permanência em um local. Cada noite apresenta uma música surpresa diferente – na estreia, foi “Little Freak” do álbum Harry’s House (2022) – criando incentivos para fãs retornarem ou discutirem qual será a próxima revelação.

Um detalhe que amplia o contexto: Styles doará uma libra de cada ingresso vendido para o fundo da LIVE, organização que protege casas de shows independentes no Reino Unido e apoia novos talentos. A residência prossegue em 17, 19, 20, 23, 26, 27 e 29 de junho, além de 1º, 3 e 4 de julho.

A turnê “Together, Together” já passou por Amsterdã e possui datas confirmadas em São Paulo, Cidade do México, Nova York, Melbourne e Sydney, com Shania Twain abrindo os shows em Londres e o duo eletrônico Fcukers ocupando esse papel no Brasil. Isso coloca a residência de Wembley não como ponto de chegada, mas como um ponto de inflexão em uma jornada maior que reconecta continentes e audiências distintas.

Fonte: rollingstone.com.br

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