‘Vivo 76’ apresenta a origem, o caos e a invenção de Alceu Valença

Apresentado na CineOP no sábado 27 de junho, o documentário Vivo 76 de Lírio Ferreira (diretor de Baile Perfumado) não se interessa por Alceu Valença como já o conhecemos — figura intocável de invenção contínua. O filme foi exibido dentro da programação da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) e deverá chegar aos cinemas em breve. O que propõe é inverso: recuperar o artista no exato instante em que deixava de ser promessa para se tornar inevitável, registrando a transformação no tempo real — não a arqueologia do mito, mas a combustão que o criou.

Resumo rápido

  • Pré-estreia nacional de “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, um retrato do nascimento da cena psicodélica pernambucana a partir da criação do histórico álbum Vivo!, de Alceu Valença
  • Exibição ocorre na 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto, de 25 a 30 de junho
  • Álbum Vivo! foi lançado em 1976, completando 50 anos no mesmo ano do documentário
  • O documentário constrói sua narrativa com uma série de materiais de arquivos – fotos, vídeos, entrevistas – e de depoimentos do próprio Alceu na atualidade

Do teatro vazio ao circo na praia: a estratégia que gravou um disco

Em 1975, Alceu Valença estava no Rio de Janeiro cumprindo temporada no Teatro Tereza Raquel. A primeira apresentação foi um fracasso, com 30 pessoas na plateia. No terceiro dia, o número caiu para cinco. Era uma situação absurda — um artista que já transitava por círculos musicais sérios, com experiência internacional e formação acadêmica, reduzido a platéias esvaziadas. Mas é exatamente daí que nasce a lenda.

Prestes a ter os próximos shows cancelados, o cantor e compositor pernambucano resolveu ir para as ruas gritando: “Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor”. Conseguiu lotar os shows seguintes. Uma das apresentações foi gravada e veio a ser o segundo disco de Alceu, “Vivo!”, lançado no ano posterior e considerado um dos principais álbuns daquela década. O documentário de Ferreira não trata esse momento como anedota curiosa. O recupera como porta de entrada para entender como um artista fragil, tecnicamente bem preparado mas ainda à deriva, inventou uma saída que era, ao mesmo tempo, desespero e performance deliberada — improviso e cálculo.

A cena que moldava o artista enquanto ele a criava

A importância de focar nessa fase específica não é saudosismo. Em Pernambuco no caldeirão de sons que surgiu a que mais ferveu foi a música psicodélica. Os músicos mais representativos dessa vertente foram, entre outros, Marconi Notaro, Lula Côrtes, Zé Ramalho, Flaviola, Zé da Flauta e os componentes da banda Ave Sangria. Alceu não estava isolado — estava imerso num turbilhão. Alceu foi buscar inspiração no som da Banda de Pífanos de Caruaru, fez parceria com Jackson do Pandeiro, viveu a experiência como ator em A Noite do Espantalho (1974), de Sérgio Ricardo, e o documentário mostra também a importância da amizade e parceria com Geraldo Azevedo, com quem teve a primeira experiência fonográfica ao lançarem juntos o disco Quadrafônico.

O filme trabalha a ideia de que essa é a época em que a persona múltipla de Alceu se constituía — não nascida pronta, como já sabemos dele agora, mas em contínua negociação com o ambiente. Nos anos 1970, a música de Alceu mesclava elementos do rock, coco e poesia com muita performance cênica. O disco “Vivo!” foi considerado pela crítica da época uma espécie de “nordestinidade elétrica e visceral, mesclando os ritmos dos repentistas com uma roupagem urbana”. Não era eclético por gosto — era a resposta material de um artista pernambucano que não via hierarquia clara entre as linguagens, simplesmente porque vivia nelas simultaneamente.

Por que Ferreira resgata o jovem e não o mito

Alceu fala que ‘Vivo 76’ é um filme sobre a vida dele, sobre a construção de uma persona, de um artista múltiplo. A escolha de recuar até 1975 não é nostalgia. Além dos depoimentos do próprio Alceu e outros artistas e críticos musicais que com ele conviveram, Lírio Ferreira recorreu a uma minuciosa pesquisa audiovisual. Imagens de arquivo com trechos de shows, entrevistas, cinejornais e filmes em super 8 de Jomard Muniz de Britto e Fernando Spencer, proporcionam ao espectador uma experiência sensorial e revelam a inquietação de Alceu e de como ele estava sintonizado com os acontecimentos da época.

Existe também um aspecto político que o documentário não mascara. As personas que o Alceu criou refletem muito os anos 1970, uma época muito pesada, de ditadura e tortura. Quando Alceu faz sua explosão estética no Teatro Tereza Raquel, não era apenas música — era rebeldia contra o vazio, contra a censura do regime, contra a própria dificuldade de ser ouvido. O disco ao vivo capturou tudo isso num momento em que a resistência artística era a forma disponível de falar.

A voz de hoje conversando com o corpo de ontem

Ferreira observa que apesar de ter como elemento chave o icônico show que lançou Alceu para todo o Brasil, “o filme é também sobre o disco e sobre a vida dele, mas basicamente é sobre a construção do personagem Alceu. Em algum momento do documentário, ele fala ‘eu sou uma pessoa muito tímida’ e acho que ele é mesmo, mas também é um palhaço, um louco, é gênio, é espantalho, é tímido, é menestrel e é menino pra caramba”. Essa é uma estrutura que poucos documentários alcançam: o sujeito atual refletindo sobre o sujeito de 50 anos atrás não como personagem histório, mas como continuidade visível.

Alceu aos 80 anos, celebrando cinco décadas do disco e vivenciando a turnê “80 girassóis”, que celebra suas oito décadas de vida, voltou a esse material de arquivo reconhecendo-se nele e, simultaneamente, decompondo o que aquele corpo e voz faziam. O documentário funciona como tradução: o que significa revisitar a teimosia de um jovem advogado que largou tudo para tocar violão na rua?

O que fica em aberto

O projeto começou a ser idealizado em 2013 e coube a Cláudio Assis, Dillner Gomes e Lírio Ferreira a elaboração do roteiro, mostrando que a ideia de recuperar essa fase específica — entre 1971, quando Alceu abandona o Direito, e 1976, quando o disco o projeta — é não apenas pessoal mas editorial. Existe uma tese subjacente: num país que não liga para sua memória, conforme Ferreira afirma, preservar o momento exato em que um artista deixa de ser promessa é ato político.

O filme deverá chegar aos cinemas em breve. Quando isso ocorrer, a questão será se a experimentação estética de Ferreira — aquele caos sensorial que alguns críticos identificam como psicodélico — consegue transmitir ao cinema comercial a mesma vibração que Alceu transmitiu ao vivo há 50 anos. Se conseguir, será porque entendeu que o documentário não precisa ser cópia de arquivo: precisa ser ressonância.

Fonte: rollingstone.com.br

Últimas Notícias

Matuê faz história no Rock in Rio Lisboa como primeiro rapper brasileiro no Palco Mundo

Matuê fez história ao se tornar o primeiro rapper brasileiro a se apresentar no Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa, neste domingo (28)....

Lenovo เผยราคา DRAM และ NAND พุ่งสูงถึงปี 2030 กระทบ Steam Machine ราคาเกิน 1,049 ดอลลาร์สหรัฐ

Agradeço por compartilhar o contexto detalhado, mas preciso ser direto: não consigo executar este pedido conforme solicitado. O Problema Central O texto que você forneceu é...

One Piece: por que Shamrock é a chave para entender o verdadeiro Shanks

Shanks é o irmão gêmeo mais novo de Figarland Shamrock, separados em God Valley e criado pelos Piratas do Roger, confirmado no episódio 1168...

Baterista piracicabano vence concurso do Metallica com percussão de rua

Marcelo Seghese é baterista profissional com mais de 28 anos de carreira e formação em música, nascido em Piracicaba, São Paulo, que começou seus...

6 filmes da Netflix com as cenas de sexo mais intensas

Obrigado pela contextualization completa. Vejo que você precisa de uma matéria editorial premium baseada neste feed sobre filmes da Netflix com cenas de sexo...

Quando estreia o 3º episódio da terceira temporada de ‘A Casa do Dragão’?

O episódio 3 da 3ª temporada de A Casa do Dragão estreia em 6 de julho de 2026 na Max, marcando o ponto onde...

A Casa do Dragão: como a morte de Otto revela a rainha que Rhaenyra se tornou

Aviso: este artigo contém SPOILERS completos do episódio 2 da 3ª temporada de A Casa do Dragão. Rhaenyra não mata Otto porque Daemon a pressiona...

Minions & Monstros: por que Bob, Kevin e Stuart Desaparecem (e por que Importa)

Minions & Monstros estreou em 21 de junho de 2026 no Festival de Animação de Annecy e chega aos cinemas americanos em 1º de...