Helena Solberg é homenageada na abertura da 21ª CineOP: a redescoberta de uma cineasta invisível

Helena Solberg, cineasta brasileira nascida em 1938, é importante nome da produção documental brasileira que aborda temas políticos e questões femininas, e sua homenagem na abertura da 21ª CineOP – realizada hoje (25 de junho) em Ouro Preto – marca o reconhecimento de uma dívida de memória do cinema nacional com uma das cineastas mais influentes do Brasil que ficou anos invisível.

De única mulher do Cinema Novo à redescoberta internacional: o preço de estar fora

Helena Solberg é a única diretora mulher associada ao Cinema Novo, movimento que politizou o formalismo radical do cinema brasileiro. Mas essa singularidade veio com um custo: em histórico de preservação do cinema brasileiro, prioridade foi dada a filmes de homens, enquanto filmes feitos por mulheres foram negligenciados e mal preservados. A Entrevista, seu filme de estreia, circulou em baixa resolução até 2022, quando foi digitalizado em 2K a partir de um print de 16mm do Arquivo Nacional.

Essa invisibilidade não reflete o peso do trabalho. Em 1983, Solberg recebeu um Emmy Award por From the Ashes: Nicaragua Today, documentário sobre uma nova sociedade nascida da turbulência política na América Central. Cinco anos depois, um outro prêmio internacional: com o longa Carmen Miranda: Bananas is my Business ganhou os prêmios de melhor filme pelo júri popular, da crítica e o especial do júri no Festival de Brasília. Mas Brasil não acompanhou a trajetória.

Resumo rápido

  • Helena Solberg recebe homenagem oficial na 21ª CineOP de Ouro Preto (25-30 de junho)
  • Única mulher diretora do movimento Cinema Novo brasileiro
  • Recebeu Emmy Award em 1983 e reconhecimento internacional com Carmen Miranda (1994)
  • Retrospectiva inclui A Entrevista (1966) e Meio Dia (1970)
  • É participação da cineasta na CineOP desde 2014

Por que A Entrevista foi esquecida quando deveria ter sido canônica

A Entrevista, filme de estreia de Helena Solberg em 1966, é um marco do cinema feminista brasileiro. O curta de 19 minutos não era apenas denúncia; era método. Solberg usa som assincronizado – técnica que ganharia tração entre cineastas feministas nos anos seguintes – e enquanto vemos uma jovem mulher se preparando para seu casamento, a voz em off apresenta uma imagem menos tranquila, composta por entrevistas em que mulheres burguesas refletem sobre amor, sexo e casamento em uma época quando tal conversa era tabu.

O problema não era formal. Era político e temporal. A Entrevista foi filmado em 1964, no ano que marcou o início do golpe militar no Brasil, e lançado dois anos depois, no auge do Cinema Novo, gerando burburinho na estreia. Mas o contexto era o da violenta interrupção da consciência social progressista pelos presidentes Kubitschek e João Goulart pelo golpe militar que instalaria duas décadas de ditadura. Cinema Novo tinha homens, tinha urgência política imediata, tinha manifesto. Uma mulher que falava de gênero dentro de uma crise de Estado não cabia no cânone.

O que significa homenagear Solberg agora na CineOP

A 21ª CineOP segue o conceito “Um país existe nas imagens que preserva” e destaca a preservação audiovisual, o protagonismo das mulheres no cinema e o papel da educação na formação do olhar. Homenagear Solberg nesse contexto não é nostalgia. É admissão de que a memória audiovisual brasileira foi construída com lacunas de gênero sistemáticas. É também convite para ver o documentário político de hoje – que abraça intimidade, gênero, identidade – como herança direta de cineastas que Solberg abriu caminho.

Em 2004, Helena Solberg dirigiu seu primeiro longa de ficção: Vida de Menina, baseado no diário de Helena Morley, que aborda o cotidiano de Diamantina entre 1893 e 1895, e foi premiado como melhor filme no Festival de Gramado. Mas o reconhecimento veio tardiamente, depois de 30 anos morando nos EUA, depois de um Emmy, depois de uma filmografia que atravessou América Latina documentando gênero, trabalho, política.

Sua filmografia se divide em fases: Trilogia da Mulher (década de 1970), Fase Política (1980-1990) e Arte Brasileira em sua fase atual. Cada fase responde a uma questão diferente: como o trabalho feminino é explorado? Como a política externa dos EUA define o futuro da América Latina? Como a arte e a palavra testemunham? Mas todas compartilham o mesmo método: usar arquivo, depoimento e imagem para desmontar narrativas oficiais.

O que fica em aberto

A retrospectiva que acompanha a homenagem inclui não apenas A Entrevista e Meio Dia, mas também Carmen Miranda: Bananas is my Business – documentário que retoma a trajetória da artista brasileira e propõe leitura mais complexa e humana de sua figura, para além dos estereótipos. É convite para rever tudo que Solberg tocou sob nova luz.

Mas a pergunta permanece: quantas outras Helena Solbergs o arquivo audiovisual brasileiro esqueceu? E quantos documentários políticos de hoje, que falam de gênero e memória com liberdade, precisam dessa invisibilidade reparada para entender de onde vieram suas próprias ferramentas?

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Enciclopédia Itaú Cultural, Cinemateca Brasileira, FGV CPDOC, CineOP 2026, Another Screen.

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