Geddy Lee, vocalista, baixista e tecladista do Rush de 72 anos, foi diagnosticado com laringite e bronquite e, por recomendação médica, ficará em repouso para recuperação. Os shows marcados para 30 de junho e 2 de julho na Dickies Arena, em Fort Worth, Texas, foram remarcados para 11 e 13 de julho. Mas este adiamento revela muito mais do que um simples contratempo: expõe as fraturas invisíveis de uma turnê de reunião que, apesar de monumental, corre contra o tempo biológico de seus arquitetos.
O segundo tropeço de uma turnê que começou a socar acima de seu peso
Este não é o primeiro adiamento de Fort Worth. A banda já havia adiado uma apresentação por problemas na fronteira com o México, quando o primeiro show em Fort Worth foi transferido de 24 de junho para 2 de julho. Agora, esse mesmo show de 2 de julho voa para 13 de julho. Dois tropeços em uma sequência de apenas 12 dias. E não se trata de mera desorganização: a banda realizou os shows de 26 e 28 de junho com sucesso. O problema apareceu no intervalo de 48 horas entre a terceira e a quarta apresentação da série.
Geddy Lee revelou que tanto ele quanto Alex Lifeson “estão adorando as horas de ensaio que estão passando com Anika e agora com Loren, aprendendo cerca de 40 músicas”. Essa demanda física e vocal é exponencial: não é apenas tocar, é aprender, ensaiar e executar um repertório que muda a cada noite. Para um vocalista de 72 anos, mesmo em condição excelente, a dosagem de uma turnê que cresceu de 12 para 58 shows coloca a voz sob pressão nunca prevista.
A voz é a primeira a avisar quando o corpo está além do limite
Geddy revelou em sua autobiografia que nos primeiros anos abusou da voz fumando e usando cocaína durante os shows, mas “nos últimos quinze anos ou mais de turnês, passei a cuidar da minha voz com muito mais atenção”. Essa disciplina é seu escudo. Mas nem escudo impede a realidade: laringite é inflamação da laringe, geralmente viral. Bronquite é inflamação dos tubos respiratórios. Juntas, são o aviso de que o corpo pediu trégua e não recebeu.
Em comunicado na semana da turnê, a banda enfatizou sua filosofia: “Depois de mais de 50 anos de turnês, sempre acreditamos que, se vamos subir ao palco, devemos a vocês a melhor performance que pudermos dar — e, no momento, isso simplesmente não é possível”. Essa frase carrega peso histórico. O Rush nunca foi banda de performance morna. Geddy Lee e Alex Lifeson não apenas tocam: executam partituras que exigem precisão cirúrgica, especialmente com a nova baterista Anika Nilles, que foi aprendendo “cerca de 40 músicas” para honrar o legado de Neil Peart.
O adiamento não é fraqueza. É a recusa em fingir força.
O custo invisível de uma reunião que ninguém esperava que voltaria
A turnê de 2026 na América do Norte cresceu para 58 shows em 24 cidades, com mais de meio milhão de ingressos vendidos. Isso é fenomenal. Mas também é insano. Uma das turnês mais altamente antecipadas de 2026, marcando o retorno do Rush aos palcos após mais de uma década, com Geddy Lee e Alex Lifeson se apresentando juntos novamente enquanto homenageiam o legado de Neil Peart.
A pressão psicológica e física disso não pode ser subestimada. Lee disse que ele e Lifeson começaram a pensar mais seriamente sobre uma turnê de reunião depois de viajarem para um spa de saúde na Áustria, e que Lifeson havia se submetido a uma cirurgia dois anos antes que o deixou com gastroparesia. Quando retornaram para casa, ambos se sentiram dispostos e capazes de considerar um pequeno número de datas de turnê. De 12 shows a 58 é um salto que nenhum planejamento médico previu.
O que fica em aberto para o resto de 2026 e a turnê na América do Sul
Após os shows remarcados de Fort Worth em julho, a banda segue para uma temporada de quatro noites em Chicago nos dias 16, 18, 20 e 22 de julho. A agenda não para. A turnê segue até dezembro no hemisfério norte, e o Rush excursionará pela América do Norte ao longo de 2026 e, no ano seguinte, levará a “Fifty Something Tour” para outros continentes, chegando ao Brasil entre 22 de janeiro e 4 de fevereiro de 2027 para seis shows.
A questão silenciosa que paira agora é esta: se a voz de Geddy Lee cedeu uma vez em julho, qual é a garantia de que não cedará novamente antes de dezembro? E mais importante para o Brasil: o trio será formado por Geddy Lee, Alex Lifeson, a baterista Anika Nilles e o tecladista Loren Gold nas seis datas brasileiras. Mas a saúde do vocalista é hoje a variável mais imponderável da turnê.
O retorno do Rush não era apenas nostalgia. Era também um teste de fé: fé de que o corpo aguentaria, que a voz resistiria, que 50 anos de estrada não teriam deixado cicatrizes demais. O adiamento de Fort Worth prova que, sim, essa fé tem limite.
Fonte: rollingstone.com.br
