Geddy Lee credita os Beatles pela primeira música de metal, mas não no óbvio

Geddy Lee do Rush tem uma opinião controversa sobre a origem do heavy metal: não foi “Helter Skelter”, a canção de destruição apocalíptica que obcecou cultistas nos anos 60. Para o baixista canadense, a primeira música de metal dos Beatles foi “Taxman”, uma composição de George Harrison do álbum Revolver, graças a um truque de gravação que Paul McCartney improvisou no estúdio.

Em conversa com a Amazon Music, Geddy Lee traçou a genealogia de suas influências no instrumento e colocou McCartney como figura central no pré-metal dos Beatles. A questão é simples mas revela como a história do rock é muito menos linear do que parece: quem realmente inventou o som mais pesado e distorcido não é necessariamente quem históricos do gênero costumam apontar.

Por que “Taxman” é heavy metal antes do heavy metal existir?

Geddy Lee ouviu em “Taxman” exatamente o que o heavy metal prometeria anos depois: peso, distorção e irreverência. Mas o detalhe que torna a canção verdadeiramente radical é como foi gravada. McCartney supostamente conectou um pedal de fuzz direto na mesa de gravação, sem amplificadores ou microfones intermediários. O resultado é um som ainda mais cru e distorcido que qualquer amplificador conseguiria produzir na época.

Na entrevista, Geddy Lee elogiou especificamente a linha de baixo de McCartney:

“Paul McCartney foi um baixista muito influente. Se você escuta ‘Come Together’, essa é uma linha de baixo super ousada. E se ouvir ‘Taxman’, isso é heavy metal antes de existir heavy metal.”

A observação de Lee não é apenas curiosidade de músico — é uma leitura técnica. “Come Together” tem uma das linhas de baixo mais inovadoras dos Beatles, mas “Taxman” é o ponto de ruptura sonora. O solo de guitarra é agressivo, visceral, construído por um instrumento empurrado além de seus limites naturais. Não é metal no sentido que Black Sabbath definiria o gênero, mas é o DNA do som que viria.

E “Helter Skelter”? Por que não é a escolha óbvia?

A maioria dos historiadores do rock aponta “Helter Skelter”, do White Album de 1968, como o proto-metal Beatles. A canção foi composta por McCartney em resposta a uma declaração de Pete Townshend (do The Who) sobre como “I Can See For Miles” era a coisa mais barulhenta, crua e suja que sua banda havia gravado.

Ao ouvir a faixa, McCartney achou comportada demais e resolveu fazer algo capaz de superar a descrição de Townshend. O resultado foi caótico: gritos, distorção extrema, uma produção que soava quase primitiva em propósito. “Helter Skelter” conquistou status de quase-mito porque ganhou contornos sinistros através de Charles Manson, que interpretou a letra (originalmente sobre uma atração de parque de diversões) como profecia apocalíptica.

Mas Geddy Lee oferece uma perspectiva diferente: se o metal é sobre a manipulação deliberada da tecnologia para alcançar um som novo e agressivo, “Taxman” é o verdadeiro precursor. Não é apenas barulhento — é engenhosamente distorcido. Há intencionalidade sonora, não apenas volume e caos.

Qual é a real origem do heavy metal, então?

A questão da primeira música de metal é um campo de batalha de opiniões. Black Sabbath é considerado por muitos o ponto de partida oficial do gênero em 1970, com a faixa-título “Black Sabbath”. Mas esse ponto de vista ignora toda uma evolução que começou no meio dos anos 60.

Se você considerar metal como o uso deliberado de distorção, agressividade sonora e estruturas de acordes mais pesadas, então a linhagem passa pelos Beatles sim — mas também por The Who, Steppenwolf (com “Born to Be Wild”) e até mesmo por bandas de blues-rock que experimentavam com amplificação extrema. Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath consolidaram o gênero, mas não o inventaram do zero.

O que Geddy Lee está dizendo é que os Beatles não apenas influenciaram o metal — eles criaram os blocos de construção sonoros que definem o gênero. E “Taxman” é um desses momentos de ruptura onde a tecnologia de gravação encontra a ambição artística em forma de distorção pura.

Para um baixista como Lee, que fez carreira tocando linhas complexas e inovadoras no Rush, reconhecer McCartney como predecessor faz sentido. McCartney não era apenas um compositores melódico — era um experimentador de estúdio que não tinha medo de quebrar as regras da gravação. Isso, no final, é exatamente o que o metal faria pelos próximos 50 anos.

Fonte: rollingstone.com.br

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