Quando a sobrevivência do Kiss custou mais que uma vida

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Paul Stanley reconheceu em entrevista ao Howard Stern que a única coisa que considerou um erro foi quando Eric Carr, o segundo baterista do Kiss, ficou doente com câncer. Mas essa admissão tarde, feita décadas depois, carrega mais peso que qualquer outro remorso que o vocalista pudesse carregar da história de uma banda que redefiniu o rock dos anos 1970. Eric Carr morreu aos 41 anos em 24 de novembro de 1991 após batalha contra um raro câncer cardíaco, mas foi demitido da banda enquanto enfrentava a doença. O problema não foi apenas uma decisão corporativa errada — foi a revelação de que quando o Kiss precisou escolher entre piedade humana e produtividade musical, escolheu a segunda.

Como membro de substituição, Carr era funcionário pago sem privilégios de voto, ao contrário dos fundadores que dividiam lucros e direitos iguais. Essa hierarquia estrutural o deixava sentindo-se como um cidadão de segunda classe do Kiss, frequentemente excluído de limusines compartilhadas, com presença mínima em vídeos e até parcialmente cortado da capa do álbum Asylum. Essa precondição — a de estar lá, mas nunca realmente ali — tornou tudo que viria depois ainda mais injusto.

## O não-pertencimento que não tinha cura

Carr queria trabalhar na música “God Gave Rock ‘n’ Roll To You II”, gravada no início de 1991, ano de sua morte, que apareceu na trilha do filme Bill & Ted’s Bogus Journey, mas foi substituído por Eric Singer. Não foi apenas a retirada de uma música — foi a negação daquilo que mais importava para alguém que nunca havia se sentido plenamente dentro da banda que o tinha feito conhecido.

Como Paul diria depois: “Tínhamos cortado Eric da pior maneira, negando-lhe o que mais importava para ele, seu lugar no Kiss. Então, sim, eu me sinto mal por isso, e ele se afastou de nós com razão e se sentiu traído”. Essa linguagem — tão cuidadosa, tão devastadora — mostra alguém reavaliando uma estrutura que sua própria presença criou. Stanley sabia exatamente o que havia feito porque havia visto Eric Carr lidar com essa mesma exclusão por onze anos.

No início de 1991, Carr descobriu um câncer raro no coração. A banda começava a trabalhar no álbum “Revenge” (1992) e, apesar da doença do músico, optou por seguir em frente com as gravações sem sua participação. A lógica mercadológica era limpa: produção não interrompe. O custo humano foi irreversível.

## A negação que se tornou morte

Tanto Gene Simmons quanto Paul Stanley não acreditavam que Carr iria de fato morrer. Em sua opinião, faltou sensibilidade diante da situação. Stanley disse: “Eu não achava que ele pudesse morrer. Eu pensei que essa era apenas uma condição do momento, tipo ‘ok, ele está com a doença agora e depois ela vai desaparecer'”. Aqui está o cerne: não foi frieza deliberada, mas incapacidade psicológica de compreender uma mortalidade que vinha se aproximando.

Stanley admitiu que Carr tinha câncer cardíaco, uma forma muito rara de que ocorrem apenas cerca de seis casos por ano. No começo não acreditavam que fosse possível, e ao longo de pouco tempo ficou mais claro. Ele foi submetido a cirurgia cardíaca de grande porte. Stanley disse que o cérebro simplesmente não deixa você compreender a mortalidade.

A banda não deixou Carr morrer abandonado — eles cuidaram dele, pagaram suas contas médicas, mas também disseram “vamos continuar como uma banda enquanto ele estiver doente”. Bem, ele não estava só doente, ele estava morrendo. Fizeram o que pensavam ser cuidadoso, mas não levaram em conta a profundidade do que estava acontecendo.

## A morte que eclipsou uma morte

Carr passou away no mesmo dia em que Freddie Mercury morreu — 24 de novembro de 1991. Sua morte ocorreu no mesmo dia que a do vocalista do Queen, cuja morte atraiu mais atenção da mídia. A coincidência cronológica virou metáfora: Carr não apenas perdeu a vida, perdeu também o espaço de sua morte. O mundo chorava Mercury. O Kiss tinha que lidar com Carr sozinho, em silêncio.

Quando Rolling Stone negligenciou cobrir a morte de Carr, a banda escreveu uma carta ao veículo, descrevendo-o como alguém que “ainda vivia e acreditava no espírito do rock ‘n’ roll … nós o amávamos, os fãs o amavam e ele nunca será esquecido”. Foi necessária uma carta pública para forçar a imprensa a registrar sua partida. Mesmo na morte, Carr precisou de intermediários — agora seus próprios companheiros — para existir na história.

Kiss dedicou o álbum “Revenge” de 1992 a Carr e fechou o disco com uma faixa instrumental com um solo estendido do baterista. Uma tributo que deveria ter vindo antes, quando ainda havia tempo.

## O que fica quando a culpa é tardia demais

Em 2023, 32 anos depois, Paul Stanley ainda carregava o remorso — em entrevista ao radialista Howard Stern admitiu que havia demorado a perceber que continuavam as atividades enquanto Carr batalhava contra o câncer não foi a melhor decisão. Mas remorso não reverte decisões. Não traz de volta o homem que foi demitido de sua própria identidade visual justamente quando mais precisava dela — quando a doença lhe tirava tudo mais.

Eric Carr foi muito mais que um substituto: foi uma força renovadora para o Kiss, trazendo energia e técnica únicas que marcaram uma nova fase para o grupo. Carryin albums como “Creatures of the Night”, “Lick It Up” e “Hot In The Shade”, sua bateria pesada — literalmente mais pesada, mais agressiva que a maioria dos bateristas de sua época — redefiniu o som do Kiss nos anos 1980. Sem ele, “Revenge” soaria diferente. Mas “Revenge” existia porque ele não estava lá para existir.

O remorso público de Paul Stanley é talvez a coisa mais honesta que ele já disse sobre sua carreira. Não porque o Kiss cometeu um crime — cometeu uma escolha. A sobrevivência da banda exigiu que alguém fosse deixado para trás. Que alguém fosse negado. Que alguém fosse esquecido. E aquele alguém continuou tocando bateria mesmo enquanto desaparecia.

A verdade incômoda que Stanley carrega é que no momento em que Carr mais precisava ser lembrado, o Kiss decidiu que era mais importante ser produtivo.

Capa do álbum Asylum do Kiss, onde Eric Carr foi parcialmente cortado
Capa do álbum Asylum, lançado com Eric Carr parcialmente excluído do material visual (Reproducao)

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Whiplash.Net, Ultimate Classic Rock, MusicRadar, Ultimate Guitar, Igor Miranda, Disconecta, Wikipedia, Metropoles, Terra, Atitude Rock'n'Roll.

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