Beth do Kiss: como uma balada rejeitada se tornou o maior hit da banda

Beth não deveria ter funcionado. Gene Simmons e Paul Stanley odiavam a música porque era uma balada e não queriam um ballad, e foi Bob Ezrin quem sugeriu que a banda precisava de uma balada porque não tinha garotas no público. Enterrada como lado B de “Detroit Rock City”, a canção que deveria ser descartada se tornou o 7º lugar no Billboard Hot 100 — o maior hit do Kiss na história estadunidense.

O paradoxo de Beth resume a história de como Destroyer salvou a banda não com mais som, mas com vulnerabilidade. Uma produção mais cara, orquestras e efeitos não eram a solução. A solução era mostrar um rosto diferente por trás da maquiagem.

Lee Marvin em O Selvagem, referência cinematográfica usada por Bob Ezrin para reposicionar o Kiss
Lee Marvin em O Selvagem (1953), filme usado por Bob Ezrin como referência para reestruturar a imagem do Kiss (Reproducao)

A estratégia de Bob Ezrin: transformar testosterona em humanidade

Nos primeiros anos da década de 1970, o Kiss ocupava um nicho específico do rock. Segundo Bob Ezrin, que havia trabalhado com Lou Reed e Alice Cooper, o público do grupo era composto quase exclusivamente por “moleques espinhentos de 15 anos”. Não havia lugar para mulheres em um palco onde a masculinidade era o único roteiro.

Ezrin viu nisto um problema comercial e narrativo. A banda precisava de um “lado B” da personalidade — não abrir mão do espetáculo, mas revelar algo que puxasse emoção. O produtor fez uma analogia cinematográfica: até então, o Kiss era como o personagem “mau e desagradável” de Lee Marvin em O Selvagem (1953). O objetivo era transformá-los no personagem de Marlon Brando — alguém que, apesar da casca grossa, possuía uma sensibilidade capaz de fazer as mulheres pensarem: “eu amo esse cara e vou consertá-lo”.

Esta não era apenas uma mudança musical. Era uma reestruturação do apelo público da banda. Ezrin contou que arquitetou em Destroyer uma mudança no Kiss que passou pelo aspecto musical, mas também pelo lírico, com o propósito de fazer com que deixassem de ser uma banda de rock machista que agradava a garotos de 15 anos cheios de espinhas.

A origem acidental da canção mais importante da carreira do Kiss

Beth nasceu de um acidente histórico. A música originou-se como uma composição folk que Peter Criss escreveu para sua namorada, chamada “Beck”, sobre um homem tendo que voltar para a estrada e deixar a garota em casa. A origem era tão deslocada do identidade Kiss que Criss nem sequer a trouxe como proposta principal para Destroyer.

Durante um passeio em uma limusine, Criss cantou uma versão acelerada de “Beck” para Gene Simmons e Paul Stanley, assumindo que eles não se interessariam em incluir uma balada sentimental no álbum. Simmons e Stanley sugeriram que ele a cantasse para Bob Ezrin, quem concordou em gravá-la e garantiu que seria um sucesso. A decisão de Ezrin não foi sentimental: o produtor acreditava que “Beck” era uma música de amor que “todos se relacionariam”, porque as outras músicas da banda falavam principalmente sobre sexo.

A transformação foi radical. Ezrin desacelerou a música e criou a parte de piano, mas também a tornou mais vulnerável e sensível, transformando-a em uma tragédia onde ambos os corações foram quebrados. O dia em que a Filarmônica de Nova York gravou sua parte foi um dos mais bonitos da vida de Peter Criss.

O que torna a história ainda mais notável é que Beth foi a única música do Kiss a não conter nenhum instrumental de nenhum membro da banda. Nem Ace Frehley, nem Gene Simmons, nem Paul Stanley tocaram uma única nota. A canção foi uma construção completamente externa ao núcleo da banda — e essa alienação criativa foi exatamente o que a salvou.

O lado B que inverteu a história de um álbum inteiro

Destroyer enfrentou resistência desde o início. Ao contrário do que se espera de um clássico, Destroyer não teve sucesso imediato, com vendas iniciais modestas e muitas críticas negativas, com jornalistas da época acusando a banda de ter perdido sua essência ao adotar uma produção mais sofisticada. O álbum chegou ao nº 11 no Billboard 200 no dia 15 de maio de 1976, mas rapidamente caiu, chegando ao nº 192 em agosto.

Os três primeiros singles — “Shout It Out Loud”, “Flaming Youth” e “Detroit Rock City” — não reigniteram as vendas. Somente quando as rádios começaram a tocar “Beth”, o lado B de “Detroit Rock City”, o álbum começou a vender como esperado. A balada, que segundo Simmons foi deliberadamente colocada como lado B para forçar as estações a tocarem “Detroit Rock City”, começou a receber inúmeras solicitações de ouvintes e se tornou um sucesso inesperado.

O fenômeno não era coincidência de DJ ou acaso radiofônico — era inevitável. O sucesso da faixa mudou até parte do público nos shows, atraindo mais mulheres para uma plateia que até então era muito marcada por adolescentes fãs do lado barulhento e visual do Kiss. A banda finalmente tinha acesso ao público que Gene Simmons e Paul Stanley nunca conseguiriam alcançar com pirotecnia e pura agressão sonora.

Por que a vulnerabilidade venceu o espetáculo

Beth talvez tenha funcionado justamente porque não parecia fabricada para repetir uma fórmula. Era uma música deslocada, quase rejeitada, que entrou pela porta dos fundos do single e acabou superando a faixa escolhida para brilhar. Para uma banda que vivia de máscaras, personagens e exagero, o maior sucesso comercial veio quando Peter Criss sentou no meio da pirotecnia e cantou uma história simples de saudade.

O contexto histórico importa aqui. No meio dos anos 1970, quando o rock ainda era dominado por testosterona e pose, uma canção sobre abandono emocional — cantada por um baterista que tocava “o Catman” todas as noites — oferecia algo que nenhum outro grande formato de rock oferecia: permissão para sentir. Não era a música mais sofisticada de Destroyer, nem a mais tecnicamente brilhante. Era, simplesmente, a mais humana.

Beth aparece no quarto álbum de estúdio do Kiss, Destroyer, seu primeiro a alcançar status de platina. A música foi certificada ouro pela RIAA e ganhou o People’s Choice Award para música favorita em 1977. Mas seus números não explicam seu verdadeiro impacto: ela redefiniu o que um “rock band” podia ser em um estúdio de gravação americano.

Resumo rápido

  • Posição na Billboard: 7º lugar no Billboard Hot 100 em 25 de setembro de 1976
  • Tipo de lançamento: Originalmente lançada como o lado B de “Detroit Rock City”
  • Autoria: Co-escrita por Peter Criss, Stan Penridge (falecido) e produtor Bob Ezrin
  • Reconhecimento: Certificado ouro pela RIAA; ganhou o People’s Choice Award em 1977
  • Contexto do álbum: Destroyer é o quarto álbum de estúdio do Kiss, lançado em 1976, com produtor Bob Ezrin

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Billboard.com, Wikipedia (Destroyer album, Beth song, Peter Criss), Guitar Player, CBS News, uDiscover Music, Loudwire, Whiplash.net, Igor Miranda.

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