Helena Solberg e a invisibilidade que durou 60 anos: homenagem na CineOP como reparação de memória

Quando Helena Solberg completou 60 anos de carreira no cinema, em 2026, a maioria dos brasileiros nunca havia ouvido falar dela. A homenagem na abertura da 21ª CineOP, em Ouro Preto (25 de junho), não é apenas celebração de uma trajetória. É reparo de memória, reconhecimento público de um apagamento sistemático que começou em 1966 e durou mais de cinco décadas — muito antes da invisibilidade das mulheres cineastas virar pauta.

Helena Solberg não foi esquecida por falta de importância. Ela é reconhecida como a única mulher a participar do movimento do Cinema Novo no Brasil. Em 1983, recebeu um Emmy Award por From the Ashes: Nicaragua Today, documentário sobre política e conflito. Dirigiu quinze documentários e duas ficções, acumulou prêmios em festivais internacionais e desenvolveu uma linguagem audiovisual tão inovadora que influenciaria o documentário brasileiro décadas depois. Apesar dessa trajetória singular, é somente em 2014 que Solberg começa a ser reconhecida no Brasil.

O arquivo brasileiro deixou as mulheres cineastas em baixa resolução

O problema não é acidental. A Entrevista, seu filme de estreia, circulou em baixa resolução até 2022, quando foi digitalizado em 2K a partir de um print de 16mm do Arquivo Nacional. Metaforicamente e literalmente: enquanto filmes de cineastas homens do Cinema Novo ganhavam restaurações e retrospectivas, o trabalho de Solberg permanecia degradado, armazenado no arquivo como um documento de segunda categoria.

Esse problema reflete uma estrutura brasileira onde prioridade para preservação e acesso foi dada a filmes de homens, enquanto filmes feitos por mulheres foram negligenciados e mal preservados. Não é negligência individual. É seleção institucional. E A Entrevista pagou o preço — quem a viu nos últimos trinta anos viu pixels borrados, não a fotografia limpa de Mario Carneiro. Conheceu a censura da degradação.

Solberg respondeu a essa questão na coletiva de imprensa da CineOP com clareza. Referindo-se à perda de filmes de Carmen Miranda anteriores a sua ida para Hollywood — quando apenas quatro minutos sobreviveram — ela afirmou que “a preservação da memória de um país é da maior importância”. Não era uma observação abstrata. Era diagnóstico sobre o próprio apagamento.

Um curta de 1966 que muda tudo quando você o vê completo

A Entrevista, filme de estreia de Helena Solberg em 1966, é um marco do cinema feminista brasileiro. O curta de 19 minutos não era apenas denúncia; era método. A inovação técnica é tão crucial quanto o conteúdo: Solberg usa som assincronizado – técnica que ganharia tração entre cineastas feministas nos anos seguintes – e enquanto vemos uma jovem mulher se preparando para seu casamento, a voz em off apresenta uma imagem menos tranquila, composta por entrevistas em que mulheres burguesas refletem sobre amor, sexo e casamento em uma época quando tal conversa era tabu.

O que parece simples — separar som de imagem — era revolucionário. O filme de Solberg, além de antecipar discussões sociais e políticas, também insinua tendências formais do documentário brasileiro que só se consagraria nos anos 2000. Solberg não apenas fez feminismo. Ela inventou ferramentas para fazê-lo.

Quando questionada sobre ter se considerado uma militante do feminismo, Solberg respondeu que a resposta era mais complicada. Não chegou ao filme com uma tese pronta. “Eu tinha uma trilha sonora e não tinha um filme”, disse ao relembrar o processo. O projeto inicial era apenas entrevistar jovens mulheres. Quase todas desistiram quando souberam que seriam filmadas. Solberg reinventou o roteiro. “Quando eu voltei, o filme aconteceu. E aconteceu um filme muito mais interessante do que se eu tivesse simplesmente feito um documentário de moças contando suas histórias.”

A fronteira invisível entre documentário e ficção

Uma das consequências de Solberg ter sido apagada é que sua reflexão sobre a própria prática também desapareceu. Na coletiva, ela explicou sua recusa permanente em separar documentário de ficção. “Eu acho que todo filme é um documentário, inclusive a ficção. Na ficção você percebe qual é a época, o comportamento, uma série de coisas.”

Essa não era uma posição teórica isolada. Era coerência com sua obra inteira. Sua filmografia se divide em fases: Trilogia da Mulher (década de 1970), Fase Política (1980-1990) e Arte Brasileira em sua fase atual. Cada fase responde a uma questão diferente: como o trabalho feminino é explorado? Como a política externa dos EUA define o futuro da América Latina? Como a arte e a palavra testemunham? Mas todas compartilham o mesmo método: usar arquivo, depoimento e imagem para desmontar narrativas oficiais.

A invisibilidade como experiência criativa

A trajetória de Solberg é também história de abandono geográfico forçado. Na década de 1970, ela passou a residir nos Estados Unidos onde viveu por cerca de 32 anos, realizando 11 documentários para emissoras de televisão como PBS e Corporation for Public Broadcasting. Não foi escolha artística. Foi necessidade econômica — no Brasil sob ditadura, espaço para cinema feminista era escasso. Nos EUA, havia televisão, havia orçamento, havia plataforma.

Mas isso criou um custo: Solberg fez carreira internacional invisível para o Brasil. Seus documentários sobre a América Latina, sobre feminismo, sobre política circulavam em canais estrangeiros. O Brasil a esquecia enquanto ela documentava a própria história do Brasil de longe. O filme Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1994), biografia da cantora luso-brasileira Carmen Miranda, recebeu o prêmio de melhor documentário dramático em Chicago e coloca Solberg em contato com o público do Brasil, para onde retorna após longa temporada vivendo em Nova York. Levou uma restauração de Carmen Miranda para Solberg retornar ao Brasil. Levou seu próprio apagamento como tema para o filme ser finalmente visto.

Na coletiva da CineOP, Solberg foi questionada sobre suas maiores preocupações no cinema contemporâneo. Mencionou a facilidade do digital, que criou “abundância de material”. “Hoje se filma, se filma, se filma.” A montagem ficou mais difícil. Mas o problema real que ela nomeou foi mais amplo: guerra na Palestina, política dos EUA, inteligência artificial, tensões globais. “Tenho muito medo do planeta hoje.” Não era resposta deslocada. Era coerência: uma cineasta que documenta para reparar memória entende que a memória do presente será frágil se não a protegermos agora.

O que essa homenagem muda — e o que permanece aberto

A 21ª CineOP segue o conceito “Um país existe nas imagens que preserva” e destaca a preservação audiovisual, o protagonismo das mulheres no cinema e o papel da educação na formação do olhar. Homenagear Solberg nesse contexto não é nostalgia. É admissão de que a memória audiovisual brasileira foi construída com lacunas de gênero sistemáticas.

Mas a homenagem levanta uma pergunta que a CineOP não pode responder sozinha: quantas outras Helena Solbergs o arquivo audiovisual brasileiro esqueceu? Quantas cineastas estão em baixa resolução, esperando 2022 chegar? E quando chegar, quem as digitalizará?

Solberg continua filmando. Seu trabalho mais recente é Um Filme para Beatrice (2024), em que revisita sua trajetória cinematográfica à luz das lutas feministas no Brasil. Uma cineasta de 88 anos retornando ao próprio apagamento como assunto. Porque entender por que você foi esquecida é, em si, um ato de cinema.

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Rolling Stone Brasil, Gossip Notícias, Enciclopédia Itaú Cultural, FGV CPDOC, Cinemateca Brasileira, Another Screen, Academia.edu (Mariana Tavares).

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