Amnesiac (2001) foi lançado à sombra de Kid A, considerado uma obra-prima do rock moderno, e durante anos carregou o rótulo injusto de “álbum de sobras”. Mas duas décadas depois, fãs e críticos reconheceram que o disco é bem mais que isso: é um gêmeo tão importante quanto seu irmão, com identidade própria e arranjos que Kid A não possui. O tempo fez justiça a uma obra que sempre mereceu melhor recepção desde o início.
Por que Amnesiac foi visto como álbum de sobras na época?
Os dois álbuns nasceram das mesmas sessões de gravação no final dos anos 90. O Radiohead inicialmente planejava lançar tudo como um disco duplo, mas a densidade do material levou a banda a dividir o conteúdo. Kid A saiu primeiro em 2000, recebendo elogios massivos e sendo saudado como uma obra-prima existencial que capturava o mal-estar da era digital. Quando Amnesiac chegou um ano depois, a percepção crítica automática foi a de que se tratava de “lixo” descartado da sessão anterior.
Essa impressão era completamente infundada, mas grudou por décadas. A realidade é que os músicos fizeram escolhas deliberadas sobre qual material iria para cada disco, criando obras com identidades distintas. Ainda assim, a narrativa de Amnesiac como “irmão menor” permaneceu na cultura pop até o lançamento de Kid A Mnesia em 2021, quando o Radiohead finalmente reuniu os dois trabalhos no álbum duplo que havia imagina 21 anos antes.
Como as sessões de gravação moldaram dois álbuns diferentes?
Depois do sucesso avassalador de OK Computer (1997), o vocalista Thom Yorke estava exausto com rock tradicional. Ele não queria mais guitarras — queria desmontar a própria estrutura da banda. Isso provocou um processo criativo radicalmente diferente no qual Jonny Greenwood (guitarra), Ed O’Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo) e Philip Selway (bateria) tiveram que reinventar seus papéis.
A influência veio de lugares inesperados: krautrock alemão dos anos 70 (especialmente a banda Can), música eletrônica, compositores clássicos contemporâneos e jazz. Essas referências criaram duas direções sonoras distintas. Kid A é gélido, minimalista, eletrônico — parece vindo do futuro. Amnesiac é suntuoso, orquestral, quase sensual — usa os mesmos elementos experimentais mas de forma visceral.
Philip Selway, baterista da banda, explicou essa dualidade em entrevista à Rolling Stone EUA em 2001: “Existem dois pontos de vista ali. Uma tensão entre a abordagem antiga de todos nós estarmos no mesmo lugar tocando juntos e o outro extremo de fabricar música no estúdio. Acho que Amnesiac é mais forte no quesito arranjo de banda. Em alguns aspectos, algumas das melhores músicas dessas sessões estão em Amnesiac.”
Quais são as características musicais que diferenciam Amnesiac?
Enquanto Kid A desconstrói o som até o esqueleto, Amnesiac reconstrói tudo com orquestração e nuance. “Pyramid Song” é construída sobre um piano que evoca o jazz modal de John Coltrane — a harmonia foi até comparada à composição “Olé” de Coltrane. “You and Whose Army?” segue no mesmo caminho, suspenso em jazz impressionista.
“I Might Be Wrong” faz o contrário: pega um riff de guitarra grooveado inspirado na banda alemã Can e o transforma em algo hipnótico e perturbador. “Dollars and Cents” é talvez o melhor exemplo de como Amnesiac equilibra tensão e beleza — um groove alemão visceral se entrelaça com uma orquestração feita por Jonny Greenwood e executada pela Orchestra of St. John’s.
O momento mais perverso do álbum é a regravação de “Morning Bell”, que aparecia em Kid A como minimalismo angular. Em Amnesiac, a mesma música vira quase uma cantiga de ninar — mas mantém o desconforto que a torna assustadora, nunca confortável de verdade.
Como as letras de Amnesiac diferenciam o álbum tematicamente?
Enquanto OK Computer era sobre a desumanização causada pela tecnologia e o capitalismo — e Kid A pode ser interpretado como niilista diante disso — Amnesiac toma outro caminho. Thom Yorke explora pequenas resistências, maneiras pessoais de sobreviver à brutalidade da sociedade moderna. É absurdista, não niilista: as coisas acontecem, ruins ou boas, e os personagens seguem em frente.
Em entrevista à Mojo Magazine, Yorke atribuiu especificamente a inspiração de “I Might Be Wrong” à sua companheira Rachel Owen, que repetidamente lhe dizia: “Tenha orgulho do que fez. Não olhe para trás e continue em frente como se nada tivesse ocorrido. Deixe as coisas ruins no caminho.” Essa filosofia permeia todo o disco — não é resignação, é agência pessoal diante do caos.
Como o tempo reabilitou a reputação de Amnesiac?
Durante a década de 2000, Amnesiac era frequentemente menosprezado nas listas “best-of” e discussões sobre o Radiohead. Mas gradualmente, uma fatia crescente de fãs começou a concordar com a opinião que Philip Selway havia expressado lá em 2001: o disco não era um irmão menor, era um gêmeo. Amnesiac possuía coisas que Kid A não tinha — calor, arranjos de banda, humanidade dentro da experimentação.
O momento oficial de reabilitação veio em 2021, quando o Radiohead lançou Kid A Mnesia, uma reedição que reunia ambos os trabalhos como o disco duplo que havia sido imaginado 20 anos antes. A banda não apenas reconheceu que Amnesiac merecia estar ao lado de Kid A, como reformulou toda a narrativa sobre as sessões de 1999-2000. Hoje, é impossível falar de um período do Radiohead sem falar do outro — não como principal e secundário, mas como duas faces da mesma revolução.
Fonte: rollingstone.com.br
