Hyldon e a invisibilidade do criador: por que ‘As Dores do Mundo’ é um documentário sobre preservação patrimonial

Hyldon é um paradoxo brasileiro: uma lenda viva da soul music que praticamente ninguém consegue nomear por inteiro. Mencionem “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” e As Dores do Mundo, documentário dos diretores Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, surge exatamente para resolver essa lacuna — não reescrevendo a história de quem compôs essas canções que gerações aprenderam a cantarolar, mas revelando por quais caminhos um baiano criou a assinatura sonora do Brasil sem nunca ser credenciado como deveria.

Resumo rápido

  • Exibição: 29 de junho, às 18h, na Praça Tiradentes da 21ª CineOP
  • Direção: Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues
  • Propósito: Celebrar os 50 anos do álbum “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, disco de estreia do artista, lançado em 1975
  • Elenco de depoimentos: Sandra Sá, Seu Jorge, Liniker, Arnaldo Antunes e Mano Brown
  • Entrada: Gratuita

## Quem é Hyldon e por que ele nunca foi tão importante quanto deveria

Hyldon de Souza Silva (Salvador, 17 de abril de 1951) é um produtor, guitarrista, baixista, compositor e cantor brasileiro do gênero soul. Começou com música desde os 14 anos, foi instrumentista no início de carreira, tendo passado a compositor e produtor conforme foi amadurecendo. Mas esse pedigree criativo não se transformou em nome: enquanto Tim Maia e Cassiano — seus cúmplices na construção do soul brasileiro — conquistaram projeção duradoura, Hyldon permaneceu como figura-sombra, um dos três precursores da música soul no Brasil, junto com Cassiano e Tim Maia, porém o menos reconhecido da tríade.

O disco que deveria tê-lo transformado foi “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, seu primeiro álbum de estúdio lançado em 1975 pela gravadora Polydor. O problema não foi criativo — aquele álbum tem alguns dos maiores êxitos da carreira de Hyldon, como “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)” (posteriormente regravada pelo Kid Abelha), “Na Sombra de Uma Árvore”, “Vamos Passear de Bicicleta”, “Acontecimento” (regravada por Marisa Monte), “As Dores do Mundo” (regravada por Jota Quest) e “Sábado e Domingo” — mas comercial e de indústria. A existência de uma meia dúzia de sucessos não foi suficiente sequer para colocá-lo em igualdade com colegas que lançavam uma única faixa memorável. E essa invisibilidade contrastante com a obra-prima criada é precisamente o que o documentário deseja enfrentar: a história não do artista negligenciado pós-morte, mas do criador que vive marginalizado enquanto suas canções vivem em primeiro plano, regravadas por nomes maiores sem que o público original chame pelo seu nome.

## O documentário como ato de preservação patrimonial

A 21ª CineOP encerra sua programação em uma segunda-feira com um recado claro: os documentários musicais são destaque da programação, aparecendo em diferentes momentos — não apenas na Mostra Competitiva, com “Apocalipse Segundo Baby” e “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, mas também “Fernanda Abreu — Da Lata 30 Anos, o Documentário”, “As Dores do Mundo — Hyldon” e “Vivo 76”. Isso não é coincidência de programação — a música brasileira — nas suas encruzilhadas criativas, nas suas contradições e nas suas reviravoltas — merece ser filmada, preservada e revisitada como patrimônio audiovisual.

O documentário “As Dores do Mundo: Hyldon”, dirigido por Felipe David Rodrigues e Emilio Domingos, conta a trajetória de Hyldon de Souza Silva, guitarrista e produtor, que virou artista. O filme reconstrói a infância de Hyldon na Bahia, o primeiro contato com o rock’n’roll e a construção de sua carreira no Rio de Janeiro. O documentário homenageia os 50 anos de Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, disco que transformou Hyldon em um dos grandes nomes do soul brasileiro. A produção percorre a infância do artista no interior da Bahia, sua chegada ao Rio de Janeiro e a construção de uma carreira marcada pela independência criativa. Mais que biografia, o filme é um ato de resgate público: transformar a criação em documento, a lenda em película, o artista ignorado em patrimônio visível.

## Como outras vozes ajudam a ressignificar Hyldon

Parceiro de Cassiano e Tim Maia, Hyldon relembra histórias por trás de suas canções e reafirma sua posição como um dos principais compositores da música popular brasileira. A construção narrativa incluiu testemunhas que comprovam sua importância histórica: entre os nomes que participam estão Sandra Sá, Seu Jorge, Liniker, Arnaldo Antunes e Mano Brown. Essas vozes funcionam como validação pública do que a indústria tardou séculos para reconhecer — e nenhum desses artistas está ali por obrigação histórica, mas porque Hyldon moldou suas próprias possibilidades criativas.

## O que fica em aberto

A crítica original dizia que o documentário “não transforma Hyldon em herói”, mas pode-se ler isso como força, não fraqueza. Um artista que resistiu às turnês, que contestou a gravadora em questões criativas, que manteve sua visão mesmo quando isso significava permanecer à margem — esse é o tipo de herói que o cinema documental de hoje busca: não o vencedor, mas o intransigente que pagou o preço de sua coerência. Na CineOP, o documentário será exibido gratuitamente a céu aberto na Praça Tiradentes, devolvendo ao público uma oportunidade que praticamente nenhuma plataforma privada oferecia: descobrir que Hyldon não é um nome esquecido do passado, mas um compositor vivo que ainda está compondo — e que você sempre o ouviu sem saber o que escutava.

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Wikipedia, Cinepop, Gossip Notícias, Rolling Stone Brasil, Festival do Rio, AdoroCinema, CineOP oficial, CDLFM.

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