A 21ª CineOP encerra sua programação em uma segunda-feira com um recado claro: os documentários musicais são destaque da programação, aparecendo em diferentes momentos — não apenas na Mostra Competitiva, com “Apocalipse Segundo Baby” e “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, mas também “Fernanda Abreu — Da Lata 30 Anos, o Documentário”, “As Dores do Mundo — Hyldon” e “Vivo 76”. Mas esse não é um bloco temático comum de um festival. É uma declaração de que a música brasileira — nas suas encruzilhadas criativas, nas suas contradições e nas suas reviravoltas — merece ser filmada, preservada e revisitada como patrimônio audiovisual. A CineOP chega à sua 21ª edição, de 25 a 30 de junho de 2026, reafirmando o propósito de ser espaço de reflexão, formação e articulação em torno da salvaguarda do patrimônio audiovisual brasileiro.
O filme que levou 18 anos para revelar Baby do Brasil
O documentário “Apocalipse Segundo Baby” acompanha a trajetória de Baby do Brasil, figura central da contracultura nacional, revisitando diferentes fases de sua carreira e identidade artística, posicionando-se como um retrato que mistura memória, espiritualidade e experimentação. Mas o que torna esse filme singular não é apenas o sujeito. É o tempo que Rafael Saar dedicou ao projeto: 18 anos depois do início do projeto, o documentário “Apocalipse Segundo Baby” chegou às telonas brasileiras através do Festival É Tudo Verdade. Isso não é apenas paciência editorial — é uma proposta de linguagem.
O documentário foi produzido pela Dilúvio Produções em parceria com o Canal Brasil, reconstrói as memórias da vida da artista em viagens para lugares-chave desta história, como Salvador, Niterói e Santiago de Compostela, deslocamentos que permitem que uma das personagens mais únicas e multifacetadas da MPB reflita sobre sua infância, a fuga na adolescência para a Bahia, a vida comunitária e a permanente busca espiritual. Saar já trabalhou com Ney Matogrosso, e documentou as vidas de Luhli & Lucina, Maria Alcina e Luís Capucho em documentários que misturam linguagens e narrativas.
O documentário teve já sua passagem pelo Festival É Tudo Verdade em abril de 2026 e agora chega à CineOP em pré-estreia nacional competitiva, integrado à Mostra “Arquivos em Questão” — um programa que reúne filmes que fazem uso criativo de arquivo como estrutura narrativa. Na CineOP, o documentário será exibido gratuitamente a céu aberto na Praça Tiradentes.
Quando o arquivo se torna confissão: Fernanda Abreu trinta anos depois
O documentário “Da Lata – 30 Anos” acompanha desde as gravações nos estúdios Nas Nuvens e Discover, no Rio de Janeiro, até a mixagem no Soul II Soul Studio, em Londres, além de filmagens de videoclipes, a sessão de fotos com Walter Carvalho e registros de shows; o filme vai além dos bastidores ao reunir 33 depoimentos atuais, radiografando o processo criativo e o modo de produção da música pop nacional dos anos 90. O filme não é apenas registro: é reescrita do passado à luz do presente.
O documentário, dirigido por Paulo Severo, integra a programação do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, contando com a presença de Fernanda Abreu, artista por trás de um dos discos mais inovadores da música brasileira dos anos 90. O lugar de Fernanda Abreu é reafirmado como um dos nomes centrais de uma geração de artistas que ousaram misturar samba, funk e eletrônica, abrindo caminho para formas híbridas que hoje parecem quase naturais.
O que há de curioso em “Da Lata – 30 Anos” é que emerge de uma “limpeza de gavetas”. Paulo Severo, amigo das antigas de Fernanda, ligou para ela em outubro de 2024, com fitas VHS que havia encontrado durante a limpeza, material especial do álbum “Da Lata” (1995). Coincidência arquivística que virou documentário que virou múltiplas plataformas: livro, vinil relançado, remix inédito e turnê. A CineOP exibe o filme em 28 de junho, às 20h, na Praça Tiradentes.
Alceu Valença, Hyldon e Jocy: a reinvenção como método
O resto da programação musical não é menos decisivo. O documentário “Vivo 76” é destaque da programação, mergulhando na criação de “Vivo!”, terceiro álbum de Alceu Valença, lançado em 1976, explorando o nascimento da cena psicodélica pernambucana e seus artistas. Esse é o tipo de documentário que permite entender não apenas um artista, mas uma geração estética inteira.
“As Dores do Mundo: Hyldon”, dirigido por Felipe David Rodrigues e Emilio Domingos, conta a trajetória de Hyldon de Souza Silva, guitarrista e produtor, que virou artista. O filme será exibido em 29 de junho, às 18h, na Praça Tiradentes. E há ainda Jocy de Oliveira — talvez o retrato mais ousado da série.
“Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro, apresenta o percurso artístico da compositora e pioneira da música eletrônica no país, ainda em atividade aos 90 anos. Uma mulher que dialogou com John Cage, Karlheinz Stockhausen e Luciano Berio, expandindo sua atuação para a ópera experimental. Essa é a história que o cinema brasileiro está eligindo preservar: não a de celebridades estáticas, mas a de artistas em reinvenção permanente.
Por que essa programação importa agora
A CineOP reafirma o propósito de ser espaço de reflexão, formação e articulação em torno da salvaguarda do patrimônio audiovisual brasileiro, em diálogo permanente com a educação e em intercâmbio com o mundo. Mas a presença desses cinco documentários não é apenas curatorial. Ela diz algo sobre qual história do Brasil musical merece ser contada ao cinema: é a história de artistas que nunca pararam de se transformar, que nunca caberam em um rótulo único.
A maioria das exibições é gratuita, feitas a céu aberto na Praça Tiradentes e nas salas da CineOP, com sessões gratuitas. Isso significa que a programação não é um privilégio de cinéfilo; é um compromisso declarado com a memória coletiva. De 25 a 30 de junho, em Ouro Preto, o cinema brasileiro revisita suas próprias vozes — e convida o país a ouvir.
Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: CineOP oficial, Culturadoria, Festival do Rio, Geekblast, DJ Sound, Portal Felipe Mello, Semana Pop.


