A divisão silenciosa do Rush na turnê que ninguém sabia ser a última

A turnê R40 do Rush, realizada entre maio e agosto de 2015, marcou a última grande turnê da banda. Mas para dentro dos palcos, havia uma tensão silenciosa: conforme o tour avançava, dois lados emergiam — um lado que sentia a liberdade chegando perto e outro que desejava estender aquele momento o máximo possível. Era o dilema de uma banda em crossroads, e Geddy Lee decidiu revelar essa ferida apenas oito anos depois, em entrevista de 2023 ao The Guardian.

Como a saúde redefiniu a dinâmica final

Neil Peart, enfrentando problemas de saúde na época, estava determinado a limitar o número de apresentações, e esse limite moldaria tudo o que viria. A história não é simples: Peart não queria fazer nenhum show; nem um sequer. Para ele, concordar com 30 apresentações já representava um grande compromisso. Mas o que Lee e Lifeson não sabiam na época era que essa reticência vinha de algo muito mais profundo do que cansaço.

Neil Peart precisava de apenas dez meses de aposentadoria antes de começar a sentir algo errado. Aquele sentimento de liberdade que ele experienciava no final de 2015 era literal: ele estava saindo do peso das turnês, aprimorando sua vida pessoal com a esposa Carrie e a filha Olivia. Mas apenas um ano após a aposentadoria, Neil foi diagnosticado com glioblastoma, uma forma agressiva de câncer cerebral. O timing cruel sugere que aquela “felicidade” que Geddy via no palco era, na verdade, alívio — a sensação de que ele finalmente poderia descansar.

O conflito que ninguém planejou falar

Geddy Lee não escondeu o ressentimento. Durante a promoção de sua autobiografia “My Effin’ Life”, Lee admitiu que “conforme o tour chegava ao fim, nosso relacionamento estava tenso. A cada show, ele estava mais perto do fim e ficava mais feliz, e Alex e eu ficávamos menos felizes”. A estrutura dessa divisão era simples, mas devastadora: enquanto Peart visualizava a porta de saída se abrindo, Lee e Lifeson viam a janela de oportunidade se fechando.

Neil Peart na bateria durante apresentação do Rush na turnê R40 2015
Neil Peart à bateria durante show do Rush na turnê R40, período em que enfrentava problemas de saúde (Reproducao)

Lee disse ter “empurrado muito para conseguir mais datas e fazer aqueles shows extras”, mas foi malsucedido. Peart era “adamante em fazer apenas 30 shows e pronto”. A pressão de Lee vinha de um lugar legítimo: ele “realmente sentia que deixou os fãs britânicos e europeus na mão. Parecia-lhe incorreto não fazer isso”. A banda havia prometido, implicitamente, um adeus global. Apenas América do Norte receberia.

A ferida que só cicatrizou anos depois

O que torna esta história tão editorialemente relevante é o hiato entre o acontecimento (2015) e a confissão pública (2023). Durante anos, Lee guardou silêncio sobre o ressentimento. Mas quando a oportunidade para promover sua obra literária chegou, ele decidiu ser honesto — talvez porque o tempo tinha oferecido perspectiva. Meses depois dos shows, os membros se reuniram para trabalhar no DVD “R40 Live”. Peart contou a Lee como estava feliz com sua “nova vida” afastado das turnês, e Lee teve um momento de realização: “Que tipo de amigo sou eu para ressentir isso depois de tudo que ele enfrentou?”

Essa reconciliação privada nunca foi mencionada publicamente até a entrevista de 2023. E quando foi, carregava peso duplo: Peart tinha morrido em janeiro de 2020, aos 67 anos, após uma batalha de 3 anos e meio contra glioblastoma. A compreensão chegou tarde, mas ainda assim chegou.

Por que isso importa agora

A história da divisão no Rush redimensiona como entendemos farewell tours. Não é apenas sobre música ou público — é sobre três homens em diferentes estágios de vida, com diferentes necessidades. Lifeson descreveu o sofrimento de Peart: “Seus ombros doíam, seus braços doíam, seus cotovelos, seus pés — tudo. Ele não queria tocar nada abaixo de 100%”. Perfeccionismo não é só uma qualidade artística; é uma prisão emocional quando o corpo começa a falhar.

A turnê R40, agora, é memória tocada pela trágica ironia: a “liberdade” que Peart buscava em 2015 durou apenas dez meses antes que o câncer silencioso começasse a consumir seu corpo. Lee e Lifeson, que o ressentiam por querer sair cedo, perderam mais tempo com ele — e nunca saberiam que aquele era realmente o fim, até ser muito tarde demais para dizer tudo o que deixaram não dito durante aquela turnê tensa.

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: AXS TV, Ultimate Classic Rock, Rolling Stone, Wikipedia, Farout Magazine, Guitar.com, Blabbermouth.

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