O Arctic Monkeys enfrentava seu maior dilema criativo após três álbuns de topo de paradas britânicas. O disco anterior, Humbug (2009), produzido por Josh Homme do Queens of the Stone Age, havia alienado fãs que queriam mais dos primeiros trabalhos da banda. A solução veio de um lugar inesperado: a volta às raízes de Sheffield e à espontaneidade que os lançou no MySpace. O resultado foi Suck It and See (2011), um álbum que não apenas resolveu a crise, mas redefiniu o futuro do Arctic Monkeys nos Estados Unidos.
Por que Humbug foi rejeitado pelo público, apesar de seu valor musical?
Humbug chegou carregado de ambição. Josh Homme trouxe pesadez ao som, explorando territórios de stoner rock e psicodelia que afastaram a banda de seu indie britânico dos primeiros discos. O álbum tinha riqueza sonora e complexidade — havia escuridão gótica em “Crying Lightning”, romance em “Cornerstone” — mas o público não estava preparado. Os fãs queriam o Alex Turner tímido e os riffs afiados de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006), não um frontman explorando novos horizontes musicais e pessoais.
A mudança de Alex Turner para Londres e depois Nova York, impulsionada pelo relacionamento com a modelo Alexa Chung, havia expandido seus horizontes criativos. Ele estava absorvendo influências de The Last Shadow Puppets, seu projeto paralelo focado em pop orquestral dos anos 1960. Em entrevista à Interview Magazine, Turner explicou: “Em algum momento ao longo do caminho, percebi que algo mudou em termos da maneira como eu abordo a composição. Antes, tudo era apenas meio que montado; e cada vez mais hoje em dia, eu tenho músicas completas—acordes, letras, uma melodia.” O problema era que essa mudança era prematura demais.
Como a espontaneidade se tornou a fórmula de Suck It and See?
A resposta não foi abandonar as conquistas de Humbug, mas recontextualizá-las através do humor e da leveza. A banda manteve arranjos sofisticados, mas os embrulhou em narrativas hilariantes e riffs incendiários. “Brick by Brick”, que abria o álbum com Matt Helders nos vocais, era uma paródia do próprio stoner rock que haviam experimentado. Turner contou ao NME como a música nasceu: em um bar em Miami, durante uma turnê, a banda listou “todas essas coisas que você quer fazer – tijolo por tijolo – e apenas fizemos uma lista delas que provavelmente era três vezes mais longa do que acabou se tornando”.
“Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair” seguiu a mesma receita absurda: listar atividades estapafúrdias e supostamente perigosas — quebrar espelhos, abrir negócios com ursos pardos, dançar Macarena no antro do diabo — enquanto riffs queimavam tudo ao redor. Essa abordagem transformou Suck It and See em um álbum ousado, mas acessível. A banda havia descoberto um equilíbrio que Humbug nunca alcançou: ambição musical sem pretensão.
Qual era a qualidade das baladas românticas de Suck It and See?
Se as faixas cômicas constituem a identidade geral, as baladas representam o amadurecimento verdadeiro. Turner entregou seu melhor conjunto de composições romantizadas, começando pela deslumbrada “Reckless Serenade” e passando pela faixa-título e “Love is a Laserquest”. Este último título pode parecer bobo — uma referência a um jogo de laser — mas a composição é uma pedrada de vulnerabilidade adolescente.
Os versos de “Love is a Laserquest” capturam a insegurança pós-ruptura com uma precisão poética que elevava Turner acima de seu contemporâneos indie: “Você se olha no espelho pra se lembrar que ainda está aqui / Ou será que os beijos de outro alguém resolvem isso / Quando não quero ser honesto / Me convenço que você foi só mais uma amante”. Há sofrimento, mas não dramaticidade barata. A composição aprendera a lição de “Cornerstone” — a melhor forma de lidar com dor é misturar romance com ironia, sinceridade com humor.
Sonicamente, Turner e companhia incorporavam influências de country clássico e pop psicodélico de guitarra britânico — The Smiths, Echo and the Bunnymen — que apareciam em toda a tracklist. “She’s Thunderstorms” (abertura) e “That’s Where You’re Wrong” (fechamento) exemplificam como a banda havia aprendido a fazer rock ambicioso sem parecer pretensioso.
Como Suck It and See marcou a invasão americana do Arctic Monkeys?
Até 2011, o Arctic Monkeys era atração para anglófilos nos Estados Unidos. A banda era relutante em promover-se no país, quase ignorando a imprensa local. Suck It and See mudou essa estratégia completamente. A turnê americana foi a maior da banda até ali — não no mesmo patamar que seu domínio no Reino Unido, onde eram headliners de festivais e lotavam arenas, mas representava uma mudança decisiva de foco.
A mudança visual de Alex Turner em agosto de 2011, no meio da temporada de festivais, selou essa transformação. Ele cortou o cabelo e adotou um topete estilo anos 50 — talvez homenageando Richard Hawley, seu ídolo de Sheffield. O frontman tímido desapareceu, substituído por um performer confiante em nível quase cômico. A percepção americana sobre a banda mudou dramaticamente. Não era mais um cult britânico inacessível; era um rock band carismático e inteligente.
Oito meses após Suck It and See, em janeiro de 2012, o Arctic Monkeys lançou “R U Mine?”, outro salto criativo que apontava o caminho futuro. Um ano e meio depois, AM (2013) chegaria para confirmar que todo investimento americano havia dado fruto. Suck It and See não foi apenas um álbum de recuperação — foi o prólogo essencial para a dominação global que viria a seguir.
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Fonte: rollingstone.com.br
