Euphoria não apenas matou Nate Jacobs no sétimo episódio da terceira temporada: usou sua morte como arma narrativa para desmontar o próprio desejo de justiça dos espectadores. Sam Levinson, criador da série, revelou em entrevista que a intenção era provocar desconforto existencial, não satisfação moral. Quando o público finalmente viu o antagonista pagar pelo que fez, a série já tinha transformado esse momento em algo tão perturbador que ninguém sabia mais se tinha gostado de vê-lo acontecer.
É cinema cruel feito para questionar a cumplicidade. E Levinson não esconde isso.

A estratégia de entregar justiça da forma mais errada possível
Sam Levinson conhece as regras que o público quer que sejam cumpridas. Em sete temporadas de Euphoria, os fãs pediram repetidamente a morte de Nate—não por ódio ao personagem, mas por justiça narrativa. Ele destruiu vidas, manipulou, chantageou, e ninguém acreditava que ele sairia ileso. Levinson ouviu cada pedido. E depois fez exatamente o oposto do que todos esperavam.
“Existe uma coisa engraçada em que eu sei o que o público quer em termos de justiça ou karma. Então eu penso: ‘Como posso entregar isso de uma forma tão horrível e angustiante que, quando acontecer, o público já não tenha mais certeza se queria aquilo mesmo?'” explica o criador.
A morte de Jacob Elordi em Euphoria não foi uma vitória catártica. Foi uma emboscada emocional. Levinson construiu anos de tensão expectativa para que no momento exato em que o público pudesse respirar—quando o vilão finalmente caía—ele retroagisse e perguntasse: você realmente quis isso?
A cumplicidade como ferramenta dramática
O criador explorou deliberadamente o que chama de “sensação de cumplicidade com o público”. Não é apenas contar uma história; é implicar o espectador no resultado moral dela. Durante anos, os fãs torceram pela morte de Nate—literalmente se quer deixar comentários em redes sociais sobre como esperavam por esse momento. Levinson transformou essa ansiedade coletiva em culpa.
“É tipo: ‘Ah, vocês queriam que ele pagasse pelo que fez?’ Essa sensação de cumplicidade é sempre interessante de explorar”, afirma Levinson.
É a diferença entre assistir justiça acontecer e se sentir responsável por ela. Na MAX, enquanto o episódio rodava, o público não apenas via Nate cair—se via a si mesmo pedindo por aquela queda.
Questionando se alguém realmente mereceu aquilo
O golpe final de Levinson é mais psicológico que narrativo. Ele não apenas matou o personagem; estruturou a morte para deixar dúvida permanente sobre a moralidade do ato. Nate era um vilão claro, mas Euphoria passou três temporadas mostrando seus traumas, suas motivações, sua humanidade quebrada. Matar alguém traumatizado é justiça ou reprodução do ciclo de violência?
“No final, você pensa: ‘Meu Deus, não sei. Será que ele merecia algo melhor? Será que ele merecia isso?’ Essas perguntas são sempre interessantes de fazer para o público”, conclui o criador.
Ninguém deveria sair da cena satisfeito. O ponto era sair confuso, incomodado, questionando próprias certezas morais. Isso é exatamente o que aconteceu.
O final de Euphoria e a herança dessa morte
A terceira temporada da série avançou cinco anos no tempo, colocando Nate casado com Cassie (Sydney Sweeney), vivendo uma vida aparentemente comum nos subúrbios. Rue (Zendaya) está em outro país, pagando dívidas; Jules (Hunter Schafer) construiu sua própria vida. O tempo supostamente resolveria tensões, mas em vez disso, criou novas.
A morte de Nate não é um finale satisfatório—é uma pergunta sem resposta deixada em suspenso. Euphoria termina a temporada com episódio estendido na HBO, e Levinson já afirmou estar “feliz” com como a série encerrou. Mas a morte de Nate garante que os fãs nunca ficarão completamente em paz com o final, exatamente como ele queria.
Essa é a verdadeira genialidade narrativa de Sam Levinson: não entregar closure reconfortante. Entregar reflexão incômoda que persegue o espectador muito depois dos créditos subirem.