A franquia Toy Story volta aos cinemas em 19 de junho de 2026 com um filme que resgata a proposta central da série: explorar o luto de brinquedos que temem ser esquecidos. Mas desta vez, Toy Story 5 consegue fazer isso focando em Jessie, personagem que finalmente ganha o tempo narrativo que merecia, enquanto a história abraça um cenário rural completamente novo para a franquia. O resultado é uma entrada que funciona melhor como reflexão sobre propósito do que como espetáculo de elenco — e isso é exatamente o que a série precisava.

Jessie como fio condutor muda tudo
A decisão de colocar Joan Cusack no centro não é apenas um reconhecimento tardio a um personagem secundário. É uma mudança estrutural. Enquanto filmes anteriores construíram suas narrativas sobre o dilema de Woody ou a história de Buzz, Toy Story 5 permite que Jessie explore o medo de substituição que define toda a franquia — mas com uma camada adicional: seu principal conflito não é existencial, e sim sobre preservar o bem-estar de Bonnie, a criança que a possui.
Cusack entrega profundidade ao personagem justamente porque o roteiro a deixa fazer duas coisas ao mesmo tempo. Jessie cuida da garota, e em cuidar, descobre seu próprio valor. Não é um sacrifício melodramático. É um paralelo emocional que a franquia explorou antes, mas raramente com tanta clareza.
Por que um cenário rural importa
A escolha de isolar o elenco principal em um ambiente rural é arriscada. Filmes anteriores de Toy Story funcionavam porque a densidade de personagens criava atrito constante — a sala de Sid, a casa de Andy, o parque temático. Menos brinquedos significa menos bate-papo, menos humor de grupo. Significa depender mais de performances individuais.
Toy Story 5 não apenas aceita essa limitação, como a transforma em vantagem narrativa. O isolamento reforça o tema central: Bonnie, como Jessie, está sozinha em seu mundo. Enquanto outras crianças têm tablets e amizades mediadas por tela, Bonnie enfrenta o desafio de conectar-se de verdade. Os brinquedos, então, não existem para entretê-la. Existem para ensiná-la a fazer amizade.
Isso é fundamentalmente diferente do que Pixar fez antes.

O retorno de Buzz como efeito colateral perfeito
Tim Allen fornece o maior número de risos do filme — não porque Buzz virou comédia pura, mas porque sua obsessão amorosa por Jessie o torna desajustado em um ambiente onde o foco é Bonnie e seu crescimento. A cena com múltiplos Lightyears é descrita como a mais engraçada, e faz sentido: é a franquia se permitindo brincar com seu próprio pastiche sem cair no narcisismo.
Allen está engajado porque está a serviço de uma história que não é sobre ele. Isso é raro em sequências.
O que falta
Não se trata de um filme perfeito. A ausência dos personagens secundários que definiram as três primeiras obras deixa um vazio que o filme sente. Toy Story 3 venceu o Oscar porque equilibrava o peso emocional de Woody com a coralidade — cada brinquedo tinha algo em jogo. Toy Story 5 funciona em uma escala menor e, portanto, menor.
Há também uma similaridade estrutural com entradas anteriores que o filme não consegue contornar completamente. A amenidade visual e o humor mantêm tudo fluindo, mas a impressão é de uma obra que respeita a fórmula ao invés de desafiá-la radicalmente.
O peso de vir após Lightyear
Toy Story 4 foi competente. Lightyear foi um erro de aposta. Toy Story 5 não precisava ser extraordinário — apenas restaurar confiança. E consegue. Uma nota 8/10 em uma franquia que produziu um 3 ou 4 em seu último experimento é suficiente para reestabelecer equilíbrio.
O filme volta os olhos para o que importa: brinquedos que enfrentam o medo de se tornarem irrelevantes, crianças que crescem, e a magia que ainda existe quando humanos e objetos se encontram com propósito genuíno. Nada revolucionário, mas tudo necessário.
Toy Story 5 não retoma os picos da trilogia original, mas prova que a série ainda entende por que existiu em primeiro lugar.
Fonte: thedirect.com