Seth Rogen afirmou que Sylvester Stallone fez apenas cerca de quatro bons filmes ao longo de sua carreira, comentário que viralizou após um episódio recente do podcast Funny You Ask com Ike Barinholtz. A declaração é tão provocativa quanto problemática — não porque Rogen não tenha direito à opinião pessoal, mas porque reduz uma das carreiras mais complexas do cinema de ação a uma métrica que ignora precisamente o que torna Stallone importante.
O que Rogen realmente argumentou — e por que soa tão vazio
Segundo Rogen, Demolidor merecia ser considerado um bom filme, enquanto Tango & Cash era apenas “divertido” sem alcançar a qualidade real. O ator também descartou toda a franquia Rocky — não uma ou duas sequelas fracas, mas todos os filmes. Essa posição revela menos sobre Stallone e mais sobre a hierarquia de valores que Rogen usa para avaliar cinema: aparentemente, um filme de ficção científica futurista merit mais crédito que uma saga de boxe que redefiniu o gênero de drama esportivo.
A crítica ganha ainda menos peso quando Rogen compara Stallone com Arnold Schwarzenegger, afirmando que “Stallone talvez não seja tão bom quanto Schwarzenegger. Nem chega perto”. Essa comparação ressurge a cada década — e a cada década, os dados contradizem a narrativa romântica de superioridade de Schwarzenegger.
Os números que Rogen ignorou
Se a qualidade é subjetiva, a bilheteria não. Stallone recebeu uma Golden Globe e prêmios de crítica, além de indicações para três Oscars e dois BAFTA Awards, sendo um dos apenas dois atores na história (ao lado de Harrison Ford) a ter estrelado um filme número 1 em bilheteria em seis décadas consecutivas. Filmes nos quais apareceu arrecadaram mais de 7,5 bilhões de dólares em todo o mundo.
Há uma diferença entre “filmes que eu pessoalmente não apreci” e “filmes que fracassaram”. A bilheteria total da carreira de Stallone é de US$ 2,8 bilhões no mercado interno norte-americano e US$ 6,3 bilhões no mundo todo, superando a carreira inteira de Schwarzenegger de US$ 2,1 bilhões domesticamente e US$ 5,4 bilhões globalmente. Rogen pode achar Rocky chato; o público mundial discorda radicalmente.
A questão que ninguém faz: qualidade para quem?
Aqui está o ponto que a crítica casual ignora. Stallone tem uma carreira de mais de cinco décadas, entregando atuações em mais de 78 filmes. Nenhum ator estrelando tantos projetos mantém uma taxa de acerto de 50%. Nem Kurosawa, nem Scorsese, nem Spielberg. A grande maioria dos atores cai dramaticamente em qualidade e relevância após os 50 anos. Stallone, aos 77 anos, continua em Tulsa King — uma série que encontrou público real, não curiosidade nostálgica.
Se Rogen quer discutir que apenas quatro filmes de Stallone sobrevivem a uma crítica rigorosa de cinema (acima de 7.0 no IMDb, digamos), ele tem razão — assim como teria razão sobre 90% dos atores de sua geração. A questão útil seria: quantos atores conseguiram manter uma carreira relevante por seis décadas enquanto criavam personagens que atravessaram gerações? A resposta é tão pequena que cabe em uma mão.
Schwarzenegger vs. Stallone: por que essa rivalidade voltou à tona
Quando Rogen reviveu a comparação com Schwarzenegger, ele tocou em uma ferida que os dois atores já cicatrizaram — mas a internet nunca esquece. Atualmente, Stallone e Schwarzenegger são grandes amigos, mas no começo da carreira compartilhavam uma rivalidade feroz. Em entrevista conjunta recente, Schwarzenegger admitiu que a “disputa” o ajudou a alcançar novos patamares, e Stallone confessou que quando Arnold apareceu, finalmente tinha algo que o motivava, chamando-o de “ameaça”.
O que ambos reconhecem agora — e que críticos como Rogen parecem ignorar — é que essa rivalidade não tinha um vencedor claro porque os dois operavam em universos diferentes. Schwarzenegger dependia menos de franquias do que Stallone, o que mudou ao longo dos anos, e sua carreira foi interrompida pela política. Stallone, por outro lado, dominou a construção de marcas duráveis: Rocky, Rambo, Os Mercenários. Quando se trata de “quantos grandes papéis you criou que duraram décadas”, Stallone vence.
O que essa crítica diz sobre o gosto atual
Há um problema subjacente no argumento de Rogen que merece atenção. Quando ele desqualifica toda a franquia Rocky, ele está realmente criticando um inteiro subgênero de cinema — o drama esportivo de baixo orçamento que se torna fenômeno cultural. Rocky nasceu de um script que Stallone escreveu, e o filme conquistou dez indicações ao Oscar, vencendo Melhor Filme, e gerou uma das séries cinematográficas mais bem-sucedidas da história.
A avaliação de Rogen privilegia um tipo específico de qualidade: experimentos visuais (Demolidor), construção de mundos futuristas, sofisticação técnica. Ela não valoriza o que Stallone fez melhor — dramaturgia de personagem, construção de mito cultural, comunicação direta com o público de trabalho. Essas são escolhas estéticas legítimas. Mas apresentá-las como verdade universal é falta de honestidade crítica.
Stallone hoje: o que fica em aberto
Enquanto Rogen fazia seu comentário casual em um podcast, Stallone continua trabalhando. O episódio de Funny You Ask saiu após Stallone demonstrar interesse contínuo em projetos relevantes, e sua presença em televisão premium (Tulsa King no Paramount+) mantém seu nome em pauta — não como nostalgia, mas como ator que ainda consegue carregar uma série. Isso não é o suficiente para Rogen? Talvez não. Mas é relevante para o público que o assiste.
A real questão não é se Stallone fez bons filmes — é o que “bom” significa quando você está medindo a carreira de um homem que alterou a linguagem do cinema de ação, criou personagens para cinco décadas, e manteve relevância quando quase todos seus pares desapareceram. Por essa métrica, Stallone não fez quatro filmes bons. Fez uma carreira boa — e rara.
Fonte principal: observatoriodocinema.com.br. Informações complementares: ComicBasics, Variety, Wikipedia, AdoroCinema, Canaltech, Rolling Stone Brasil, CNN Brasil.
