Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, usou um programa transmitido no sábado para conectar futebol e democracia, citando Sócrates e a Democracia Corinthiana como exemplos de como o esporte pode ser um instrumento de resistência política. A menção não foi casual: a cidade se prepara para sediar oito jogos da Copa do Mundo 2026, e a partida Brasil x Marrocos aconteceu em Nova Jersey, região vizinha à metrópole.
O que chama atenção não é apenas o prefeito muçulmano — o primeiro na história de Nova York — conhecer um capítulo obscuro da história do futebol brasileiro. É a escolha de usá-lo como argumento em um discurso sobre infraestrutura de um evento global. Mamdani não falava sobre estádios ou transporte. Falava sobre democracia em um campo de futebol.
Quando Sócrates virou símbolo, e não apenas um meio-campista
Mamdani começou sua reflexão deixando claro que não se referia ao filósofo grego: “Tenho pensado ultimamente em Sócrates. Não o antigo filósofo grego, mas o maestro do meio-campo brasileiro”. A precisão importa. O ex-jogador do Corinthians é uma figura quase esquecida fora do Brasil — até para brasileiros mais jovens. Mas durante os anos 1970 e 1980, ele representava algo que transcendia o futebol.
Enquanto o Brasil enfrentava uma ditadura militar, Sócrates e seus companheiros no Corinthians — João Paulo, Cássio e outros — fundaram a Democracia Corinthiana, um movimento que inverteu completamente a lógica hierárquica do futebol. Não havia intermediários entre jogador e decisão. O atacante estrela tinha o mesmo peso de voto que o funcionário da lavanderia. Essa radicalidade pode parecer simples hoje, mas em um país sob regime autoritário, era uma declaração de guerra contra qualquer forma de poder concentrado.
O movimento ganhou força em 1982, quando Waldemar Pires assumiu a presidência do Corinthians e contratou o sociólogo Adilson Monteiro Alves como diretor de futebol. A combinação de um dirigente disposto a experimentar e um intelectual que entendia o potencial político do esporte criou espaço para que os jogadores não apenas votassem sobre escalações e contratações, mas também entrassem em campo com uniformes que diziam “Eu quero votar para presidente”. Futebol como manifestação política.
Por que um prefeito de Nova York invoca uma revolução brasileira dos anos 80
A citação de Mamdani não é apenas nostalgia ou curiosidade histórica. Ele estava argumentando que o futebol, quando organizado democraticamente, torna-se um instrumento de mobilização social. “Se você era o atacante estrela ou trabalhava na lavanderia, você tinha o mesmo voto”, explicou o prefeito. A mensagem é simples: estruturas pode mudar quando pessoas decidem que vão mudar.
Em um contexto onde Nova York se prepara para receber milhões de espectadores e investimentos bilionários em infraestrutura, a invocação da Democracia Corinthiana funciona como um contraponto ideológico. Não é sobre vencer, é sobre como as decisões são tomadas. O prefeito estava dizendo algo que a indústria do futebol moderno raramente admite: que a maneira como um clube ou uma cidade organiza poder importa tanto quanto o resultado final.
Mamdani encerrou seu discurso com uma declaração que resume por que essa história continua relevante: “O futebol criou movimentos e enfrentou ditaduras. Por 90 minutos, ele não apenas nos permite esquecer os problemas do mundo, mas também encontrar maneiras de enfrentá-los”. A Copa 2026 deixa de ser apenas um evento esportivo e vira uma oportunidade de refletir sobre o que o esporte representa quando organizado em torno de princípios democráticos, não de lucro ou autoridade.
Fonte: rollingstone.com.br
