Natalie Maines volta a atacar Trump e consegue algo que não teve em 2003

Mais de duas décadas depois de ser boicotada pela indústria country por criticar George W. Bush, Natalie Maines voltou às redes para atacar Donald Trump de forma direta e profana, mas desta vez o cenário político e cultural que recebe sua mensagem não é o mesmo. A 12 vezes vencedora do Grammy escreveu no Instagram: “Nossa democracia está desaparecendo bem diante dos nossos olhos. Essa feia nojenta está usando o dinheiro da gasolina de vocês para pagar os insurgentes.” A publicação, feita em 18 de maio, não foi dirigida ao acaso: apontava para um fundo de US$ 1,776 bilhão criado pelo Departamento de Justiça para pagar acordos a supostas vítimas de perseguição judicial durante o governo Biden.

O que diferencia este momento do de 2003 é que a crítica agora enfrenta resistência não apenas de aliados de Trump. Uma juíza federal bloqueou temporariamente o Governo dos EUA de efetuar pagamentos através do fundo enquanto decorre processo judicial. Além disso, parlamentares do partido republicano se uniram a democratas para sabotar o chamado Anti-Weaponization Fund. O eco que seu post recebeu transcendeu a polarização binária: a questão não é mais se uma mulher pode falar contra um presidente, mas se o governo pode usar dinheiro dos contribuintes para compensar invasores do Capitólio.

O retorno de uma voz que nunca silenciou completamente

Em 10 de março de 2003, em um show em Londres, Maines tentou se conectar com a plateia: “Só para que vocês saibam, estamos do lado certo com vocês. Nós não queremos essa guerra, essa violência.” A frase que se seguiu — sobre envergonha do presidente ser do Texas — não se tornou uma manchete global até 12 de março, quando The Guardian publicou a crítica. Naquele momento, as Dixie Chicks sofreram um boicote desfreado depois que a vocalista criticou a invasão americana em solo iraquiano.

O que aconteceu depois é documentado como o termo “Dixie-Chicked” emergiu, simbolizando os riscos que artistas, especialmente mulheres, enfrentam ao expressar dissidência em um gênero tradicionalmente conservador. O grupo enfrentou ameaças de morte, perdeu espaço no rádio country — duas semanas após os comentários de Maines, “Travelin’ Soldier” saiu do top 40 — e praticamente desapareceu. O retorno viria apenas em 2006, com “Not Ready to Make Nice”, um álbum que ganhou Grammys mas consolidou a marca de “banda polêmica” em lugar de banda country tradicional.

Maines nunca parou de fazer política. Seu trabalho solo “Mother”, lançado em 2013, foi majoritariamente uma coleção de covers e coproduzido com Ben Harper. Em 2020, a banda relançou “March, March” e o álbum Gaslighter, mantendo uma presença editorial nas redes, mas sem alcançar a reverberação cultural que sua conta no Instagram tem agora.

Quando a crítica pessoal encontra uma questão de Estado

O que torna o post de maio 2026 diferente não é o tom — Maines sempre foi profana e direta — mas o que ela aponta. As tais “vítimas” incluem quase 1.600 insurrecionistas que invadiram e pilharam o Congresso no dia 6 de janeiro de 2021. O fundo, nominalmente para reparar “perseguição jurídica”, é percebido pela crítica como recompensa a invasores — uma leitura que ganhou peso quando a organização Democracy Forward contestou judicialmente a criação do fundo, argumentando que carece de base legal e de mecanismos adequados de supervisão.

Maines aproveitou para mencionar ainda referências aos arquivos de Epstein, sugerindo motivações maiores. A Casa Branca respondeu chamando Natalie Maines de “despicable nobody” — curiosamente, repetindo uma estratégia de ataque pessoal em vez de debater o fundo. Mas desta vez, a revolta consumiu-se no Senado, com senadores republicanos se recusando a votar projetos de lei priorizados por Trump em resposta.

O que fica em aberto após a reedição de 2026

A paralisia parcial do fundo — bloqueado judicialmente enquanto litigação continua — não será resolvida por posts no Instagram. Mas o momento revela uma fratura: nem os republicanos querem ser associados a indenizações de invasores do Capitólio. Maines, ao retomar sua voz ativista, surfou uma onda que já estava quebrando nas instituições. Diferente de 2003, quando sua crítica foi isolada e punida, agora ela fala em coro com juízes e senadores de seu próprio país.

A White House a chamou de ninguém. O Senado bloqueou o fundo. Simultaneamente. O retorno de Natalie Maines não resolveu a questão — apenas explicitou o que já estava acontecendo nos corredores do poder. É possível que, desta vez, a carreira dela saia intacta. A questão é saber se a democracia sobre a qual ela grita vai.

Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Billboard, Washington Times, Rolling Stone, Aventuras na História, 19th News, Yahoo Entertainment, Conjur, Observador.

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