Luca Guadagnino, diretor de Me Chame pelo Seu Nome e Rivais, descreveu Top Gun: Maverick como “um filme muito ruim” durante participação no Festival de Inovação do jornal italiano Il Foglio, mesmo reconhecendo que a produção gerou reações emocionais extremamente fortes no público.
A critica é particularmente interessante porque Guadagnino não nega o fenômeno que Maverick representa — pelo contrário, usa o filme como exemplo central de uma tendência que ele identifica como dominante em Hollywood: a exploração sistemática da nostalgia como moeda de troca emocional.
O que Guadagnino critica em Top Gun: Maverick?
Guadagnino afirma que assistiu ao filme em uma sala lotada enquanto produzia Rivais e presenciou reações viscerais do público. Sua critica não é sobre a recepção — é sobre a estrutura narrativa em si. Para o diretor, Maverick é um exemplo de como Hollywood tem construído blockbusters que exploram menos a criatividade e mais a relação nostálgica do espectador com material já conhecido.
O ponto crucial da sua argumentação é que essa abordagem funciona, independentemente da qualidade cinematográfica. Ele observou que enquanto assistia, “as pessoas gritavam, jogavam pipoca para o alto, estavam muito felizes” — fenômeno que atribui inteiramente à “economia da nostalgia” e não ao mérito artístico do filme em si.
Por que Guadagnino ve a nostalgia como dominante no cinema atual?
Ao comentar essa tendência, Guadagnino citou uma série de produções que funcionam sob a mesma lógica: Divertida Mente 2 (sequência), Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (multiverso com personagens do passado), Beetlejuice Beetlejuice (continuação) e até o novo filme de Steven Spielberg, Dia D.
Guadagnino oferece uma interpretação sobre como isso funciona emocionalmente: “Dia D faz parte da economia da nostalgia. Toda a imaginação é construída sobre a nostalgia e sobre como mexer dentro de nós naquilo que pensamos ter perdido para então encontrá-lo novamente.”
Essa análise sugere que o diretor enxerga um padrão industrial onde o cinema hollywoodiano deixou de construir novos mundos emocionais e passou a reciclar mundos antigos, funcionando como uma máquina de resgate psicológico — o que ele considera uma mercadoria mais segura do que risco criativo genuíno.
Top Gun: Maverick ainda assim dominou a bilheteria?
Sim. Lançado em 2022, o filme arrecadou mais de US$ 1,5 bilhão na bilheteria mundial — um dos maiores sucessos da década — e recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Esses números reforçam exatamente o argumento de Guadagnino: a qualidade cinematográfica (conforme sua avaliação) não é determinante para o sucesso de um filme apoiado em nostalgia.
A paradoxo que o diretor levanta é que a reação emocional do público foi absolutamente genuína e intensa — mas essa reação não veio da originalidade artística, e sim da carga nostálgica que o filme carrega. Hollywood, portanto, aprendeu que investir em qualidade criativa é um risco desnecessário quando a nostalgia garante lucro seguro.
O que essa critica revela sobre a posição de Guadagnino no cinema contemporâneo?
Guadagnino é um diretor cuja carreira foi construída em torno de originalidade narrativa e risco estético. Me Chame pelo Seu Nome (2017) não é um remake, não explora nostalgia corporativa, constrói seu próprio universo emocional. Rivais (2024) segue a mesma lógica — adaptação de romance, mas com visão autoral diferenciada.
Sua critica a Maverick não é mera opinião de gosto — é um posicionamento ideológico sobre o que o cinema deveria ser versus o que se tornou economicamente. O diretor está, implicitamente, defendendo espaço para cinema que não dependa de IP conhecida ou nostalgia reciclada.
Guadagnino reconhece que essa tendência não desaparecerá porque funciona comercialmente. Mas sua participação no Festival de Il Foglio sugere que continua recusando essa lógica em seu próprio trabalho — ainda que isso signifique ocupar uma posição cada vez menor no mercado dominado por sequências, remakes e continuações nostálgicas.
Fonte: observatoriodocinema.com.br