Shania Twain afirma ser uma “rock chick at heart” e cantava músicas do Def Leppard em bares antes de ficar famosa, revela em nova participação no Track Star Podcast. Mas o que torna essa confissão especial é o que vem depois: uma longa meditação sobre o produtor que transformou essa identidade rock em fenômeno global — Robert John “Mutt” Lange, seu ex-marido e arquiteto sonicador invisível de dois dos maiores álbuns country-pop de todos os tempos.
Shania e Mutt Lange foram casados entre 1993 e 2010 e construíram uma parceria bem-sucedida, resultando em três álbuns de sucesso — incluindo Come On Over (1997), que permanece como um dos discos mais vendidos de todos os tempos, com mais de 40 milhões de cópias ao redor do mundo. Mas Lange não deu uma entrevista há décadas e prefere viver uma vida reclusa, principalmente em La Tour-de-Peilz, na Suíça. Então quando Shania fala sobre ele em 2026, é raramente.
O jeito Mutt de fazer hit
Segundo Twain, “Mutt definitivamente tinha um estilo próprio e característico de trabalhar, e isso se refletia nos discos”. Mas qual é exatamente esse estilo? A assinatura estilística de Lange envolvia produção luxuosa e em camadas, com uma habilidade sobrenatural de criar hits preparados para rádio, e sua influência se estendeu por múltiplos gêneros, do rock ao pop e eventualmente ao country.
No caso de Shania, Lange não apenas produziu seus discos — ele os construiu como edifícios de som. Nas suas produções de The Woman in Me (1995) e Come On Over (1997), Lange aplicou as habilidades que havia aprendido fazendo álbuns com AC/DC e Def Leppard para garantir que as confecções country-pop tivessem tanto impacto quanto qualquer rock de arena. Twain não era mais uma cantora country tradicional; era uma pop star que falava a linguagem dos anos 90 — hooks enormes, atitude MTV, produção blindada.
Backing vocals: onde Mutt vivia obsessivo
Se Lange tem uma assinatura produtiva que distingue seus trabalhos, ela não está nos solo vocais de Shania, mas naquilo que ninguém canta sozinho: os harmônicos de apoio. Ao detalhar a genialidade de Mutt em estúdio, Shania apontou uma assinatura crucial em suas produções: a atenção meticulosa — e quase obsessiva — aos backing vocals, pois para o produtor as harmonias vocais não eram meros coadjuvantes, mas sim uma parte vital da música, na qual ele fazia questão de se envolver diretamente.
“Nos meus discos, Mutt e eu fazíamos todos os vocais de apoio juntos. Éramos só nós dois, mas ainda assim resultava num som grandioso. Com uma banda como o Def Leppard, é a banda, todas as vozes deles, e também ele ali. Ele era quase como mais um membro do grupo.”
Shania Twain, Track Star Podcast (tradução livre)
Isso explica por que Come On Over soa como soa: cada verso, cada pré-refrão está coberto de camadas vocais que parecem gravadas por um coro inteiro, mas que era apenas Shania e Mutt, overdubando repetidamente. Era trabalho manual, obsessivo, próximo de uma prática orquestral em estúdio. Nenhum algoritmo, nenhum atalho digital — apenas dois caras pasando horas demarcando harmônicos, testando intervalos, empilhando vozes até o ponto em que a mente do ouvinte se rende ao som grande.
A genealogia rock de Shania revelada
No mesmo episódio, Shania também contextualizou suas influências — e curiosamente, quase todas envolvem produção vocal complexa e em camadas. Além de citar ícones do rock como Pat Benatar e Fleetwood Mac, Shania revelou ter aprendido muito ouvindo The Carpenters.
Segundo a artista: “Foi uma influência enorme na minha composição e no meu estilo vocal — no meu fraseado, nos tons mais graves, com certeza. Mantive muito do vibrato e dos arranjos vocais. Era algo complexo e cheio de camadas… nós adorávamos sobrepor sons, e os Carpenters eram mestres nisso.”
Shania Twain, Track Star Podcast (tradução livre)
O padrão é claro: Shania não aprendeu apenas a cantar; aprendeu a orquestrar sua própria voz. Os Carpenters ensinaram que a simplicidade não é beleza — é a complexidade das camadas vocais que cria profundidade. Pat Benatar mostrou como rock poderia ter feminilidade sem concessão. Fleetwood Mac demonstrou que harmônicos densos podiam conviver com pop direto. E quando Mutt chegou, ele catalisou tudo isso, transportando essas lições para a máquina pop-country dos anos 90.
Por que Shania fala sobre Mutt agora
Mutt Lange desapareceu do cenário público. Ele não participa de documentários, não comenta sobre seu próprio trabalho, não reaparece. Com uma carreira que se estendeu por quase cinquenta anos, é plausível que algumas de suas músicas favoritas das últimas décadas envolvessem Mutt Lange, mas para muitas pessoas, ele é um fantasma da produção — aquele nome nos créditos que ninguém consegue colocar rosto.
Então quando Shania, em 2026, dedica tempo de um podcast para dissecar seu jeito de trabalhar, para elogiar sua obsessão produtiva, para reconhecer que ninguém desde então replicou aquela fórmula, ela está fazendo algo raro: resgatando historicamente um homem que escolheu desaparecer. Não está reescrevendo a história do casamento (que terminou em traição pública e dor). Está dizendo que, apesar de tudo, a parceria criativa deles foi insubstituível. Os vocais de apoio em “You’re Still the One” não soam assim porque sim — soam assim porque Mutt Lange acreditava que os vocais de apoio são tão importantes quanto a melodia.
E quarenta anos depois que Come On Over foi lançado, Shania Twain segue confirmando: ele estava certo.
Fonte: rollingstone.com.br