Low Cut Connie acaba de lançar Livin in the USA, seu oitavo álbum de estúdio, em 3 de julho de 2026, e a escolha de data não é acaso: dias antes do Dia da Independência Americana, o projeto liderado por Adam Weiner solta uma declaração tanto política quanto hedonista sobre estar vivo nos EUA em 2026. Mas o que torna este disco distinto de outras respostas musicais ao momento político atual é exatamente o que soa contraditório no título: raiva que dança, crítica que festeja, protesto que recusa entregar a alegria aos “inimigos”.
A história entre Fred Rogers e a raiva justificada
“Mr. Rogers said, ‘What do you do with the mad that you feel?'” Weiner recorda em entrevista ao podcast Rolling Stone, explicando que é preciso usar essa raiva para motivar ação: ocupar as ruas, usar a voz, votar, conversar com a comunidade, organizar. O que poderia soar como moralismo piegas — encaixar Fred Rogers em um rock and roll político — funciona como chave interpretativa. Weiner não está propondo contemplação passiva da injustiça. A proposta do álbum é sobre resiliência, não apenas raiva; as músicas encontram espaço para celebração junto à resistência, um lembrete de que a alegria pode ser sua própria forma de protesto.
É um argumento que ecoa em bandas como Sly and the Family Stone ou Prince em “Sign o’ the Times” — “Sly fazia música que era inspiradora, divertida e comentário social ao mesmo tempo”, diz Weiner. “É isso que estou tentando fazer. Podemos recuperar a alegria e protestar simultaneamente”. Mas há uma diferença crucial: a maioria dos artistas de protesto contemporâneo trata o som duro como coincidência estética ou como sinal de urgência. Weiner está propondo que o som alto, o boogie, a dança são estruturais para a mensagem — sem eles, a mensagem perde a força moral.
Quando a música prova que o custo pessoal vale
A história por trás do álbum revela por que essa posição ética é tão crítica. Low Cut Connie cancelou um show no Kennedy Center após Trump assumir o controle do local, um gesto isolado que poucos artistas fizeram. Meses depois, em fevereiro de 2026, Low Cut Connie lançou a versão elétrica da faixa-título como single do álbum. Weiner recebeu ameaças de morte, e um grande show em Pennsylvania foi cancelado porque autoridades locais consideraram a apresentação “propaganda” e disseram que era necessário proteger “a segurança das crianças da região”. O absurdo foi completo: a banda foi substituída por uma banda de covers do AC/DC chamada Halfway to Hell.
Quando perguntado se reconsideraria cantar a música, Weiner respondeu que tinha alguém em sua equipe que dispensou porque essa pessoa o aconselhava a parar: “Eu não necessariamente achava que essa pessoa estava errada, mas simplesmente não concordava com ela. Tenho que me olhar no espelho todo dia e me sentir bem com o que estou fazendo”. Isso não é retórica de campanha. É a escolha de um músico de classe média que viria melhor financeiramente ficando quieto.
O disco que equilibra raiva com ritmo
O álbum tem 10 faixas: Livin in the USA, Get Down, Little Freakers, Let Me Speak To Bobby, Can’t Be Wrong, Human Condition, Not My Problem, Oh Yeah, Everybody e Palpitations. A estrutura do álbum já comunica algo importante: a faixa-título é um lamento suave, conduzido por piano e guitarra elétrica sobre viver em um país que não se sente mais como lar, enquanto “Get Down” muda rapidamente para um groove blues-rock que funciona como válvula de escape.
Com Adam Weiner correndo pelas teclas como um homem que acabou de incendiar o piano, Livin in the USA é tanto um álbum de protesto quanto de partido — porque Weiner se recusa a permitir que “esses miseráveis roubem nossa arte e alegria”. Weiner declara o novo disco como protesto contra condições sociais autoritárias prevalentes e um álbum de festa que recupera nosso direito ao rock.
A crítica inicial confirma que o risco funcionou. “É raivoso sem ser cínico, alegre sem ser ingênuo, e um dos discos de rock mais vitais do ano porque se recusa a conceder nem a pista de dança nem o sonho americano às pessoas tentando estragar ambos”, avalia Glide Magazine. Há influências de Lou Reed e Velvet Underground na abordagem, mas Low Cut Connie está menos focado em ser sombrio e mais em colocar o piano de Adam em destaque enquanto ele corta a confusão de guitarras; o musicianismo é sólido e eles conseguem uma groove firme que corta através dos clichês do rock and roll.
Por que isso importa além de julho de 2026
Livin in the USA chega em um momento em que a música de protesto virou rara em blockbusters de rock. A maioria dos artistas que quer falar de política escolhe indie folk, hip-hop ou experimental — gêneros onde a crítica social cabe naturalmente. Rock and roll é tradicionalmente sobre liberdade e diversão, não sobre acusação. Weiner está ressignificando essa barganha: para ele, entregar a liberdade e a diversão é entregar o protesto. O rock and roll — como ele próprio escreveu, é uma “art form de virada de mesa. É hora de virar essa mesa novamente” — não é ferramenta política por acaso. É politicamente inclusivo por natureza.
O disco já conquistou apoio de figuras de alto perfil como Barack Obama, Elton John, Bruce Springsteen, Howard Stern, mantendo viva a tradição de um artista baseado em Filadélfia que nega falsas escolhas: você pode ser político ou alegre, inteligente ou dançante, raivoso ou esperançoso. Weiner compartilhou que a faixa “Can’t Be Wrong” do álbum será executada no Jimmy Kimmel Live! nas próximas semanas, levando a mensagem de volta à corrente cultural dominante.
O risco do álbum é real: críticos mais severos dirão que rock alto e letra de protesto podem mascarar falta de profundidade. Alguns ativistas dirão que a festa desvia do conflito real. Mas Weiner está operando em uma crença diferente: que a alegria coletiva, a comunidade reunida para dançar sob pressão, é ela mesma um ato de resistência. E que um musculoso piano tocado enquanto você grita a verdade é uma forma de dizer que não permitirá que o medo roube sua humanidade.
Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Rolling Stone, Glide Magazine, Americana Highways, Paste Magazine, PhillyVoice, PopMatters, Wikipedia, AllMusic.