Supergirl, já em cartaz nos cinemas brasileiros, traz Milly Alcock em uma missão intergaláctica, mas não foi apenas à tela que a produção voltou os olhos para o Brasil. Enquanto o filme decola para o espaço, carrega consigo uma história de homenagem que poucos espectadores notarão: “Garota de Ipanema”, clássico composto por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, aparece na trilha sonora — e não por acaso, já que é a composição brasileira mais regravada da história.
Mas o que torna essa escolha ainda mais brasileira ocorre fora do som. Em uma cena onde Supergirl entra em um bar alienígena em busca de um antídoto para salvar seu cachorro Krypto, alienígenas tocam essa música que conquistou o mundo. O planeta onde tudo acontece, porém, carrega um nome que reflete uma decisão editorial profunda: segundo a roteirista da novidade, Ana Nogueira, o local foi batizado em homenagem à artista brasileira Bilquis Evely, responsável pela ilustração da HQ A Mulher do Amanhã, inspiração para o novo filme da DC.
Uma canção que viajou 60 anos e cruzou a galáxia
Garota de Ipanema soma 442 regravações no total, cantadas por Frank Sinatra, Madonna, Tim Maia, Ella Fitzgerald, Caetano Veloso e inúmeros outros artistas mundialmente famosos. Essa universalidade, porém, é exatamente o que faz sua aparição em Supergirl tão peculiar: uma canção que se tornou símbolo de Brasil nos cinemas de Hollywood agora ressurge em um bar extraterrestre, num contexto onde deixa de ser ícone cultural para ser apenas… música.
A escolha funciona como metalinguagem visual. Alienígenas tocando Garota de Ipanema num bar extraterrestre é uma escolha curiosa — meio divertida, meio deslocada, mas que mostra que o filme tem alguma personalidade em momentos isolados. Há uma ironia nela: a música que foi bombardeada em trilhas sonoras de Hollywood como elemento exótico, aqui torna-se apenas som ambiente de um cantina intergaláctica. Nem céu nem inferno, apenas um bar onde heróis bebem.
Por que a homenagem a Bilquis Evely importa agora
Ana Nogueira, filha de pai brasileiro, compartilhou com fãs durante a turnê de divulgação no Rio de Janeiro a emoção de trazer brasilidade para Supergirl, incluindo como a palavra saudade — que só existe na língua portuguesa — permeia a história de Kara Zor-El. O planeta nomeado em homenagem a Bilquis Evely não é um detalhe solto: é a roteirista falando através da ficção científica sobre suas raízes.
A adaptação que originou o filme vem da minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow por Tom King e Bilquis Evely, publicada em 2021. Evely é uma das poucas quadrinistas brasileiras a alcançar nível mundial em trabalho para grandes editoras. Nomear um planeta Bilquis no novo universo DC não é apenas um easter egg para leitores de HQ: é um ato de reconhecimento dentro de uma indústria que raramente promove seus criadores originais quando os adaptam para cinema.
O que fica em aberto
A justaposição é simbólica demais para ser ignorada. Supergirl é o primeiro filme live-action sobre Kara Zor-El desde 1984 — mais de 40 anos depois, e chega carregando a brasilidade em suas camadas mais profundas: na linguagem do roteiro, na geometria do nome de um planeta, e numa canção que cruzou gerações. Que espectadores nacionais notem ou não essas camadas é outra história. Mas estão ali, tocadas por alienígenas, sussurrando que o Brasil nunca saiu de Supergirl — ele apenas viajou para o espaço.
Fonte: rollingstone.com.br
