O surpreendente melhor álbum do Queen, na opinião de Brian May

Made in Heaven, lançado há 31 anos, nunca foi considerado por fãs como o pico criativo do Queen. Mas Brian May colocou o álbum póstumo em um patamar raramente visto no discurso público: não apenas um de seus melhores trabalhos, mas seu álbum favorito do Queen. A questão não é técnica ou estética — é emocional e, segundo May, espiritual.

Por que Brian May ama Made in Heaven mais que Bohemian Rhapsody

Made in Heaven foi lançado em 6 de novembro de 1995, construído a partir de gravações que Freddie Mercury deixou registradas antes de sua morte em 1991. Esse fato é conhecido. Menos conhecida é a transformação visceral que o álbum sofreu na consciência de May — de um projeto traumático a um testamento de amor inigualável.

A declaração de May não saiu de uma única entrevista. Em podcast com a BBC Radio 5 Live e novamente em entrevista ao jornal The Guardian, ele reafirmou que Made in Heaven é seu favorito pessoal do Queen, descrevendo-o como um trabalho carregado de “profundidade tanto no conteúdo espiritual quanto em emoção”. Essa repetição intencional sugere algo além da nostalgia — uma avaliação madura de um álbum que, na superfície, parecia incompleto.

“Acho que é um dos nossos melhores álbuns, estranhamente. Eu amo o álbum, posso colocá-lo a qualquer hora. Vale ouro puro.”

Brian May, entrevista ao jornal The Guardian (em tradução livre)

A palavra “estranhamente” importa. Ela revela que May sabe que sua escolha desafia a hierarquia comum (Bohemian Rhapsody, Somebody to Love, We Are the Champions). E ainda assim, ele insiste. Não porque o álbum é tecnicamente revolucionário — ninguém faz essa afirmação — mas porque captou algo que estúdios mais polidos não conseguem: o peso de encerrar uma conversa com alguém que já não pode responder.

O processo de assemblagem que quase destruiu May emocionalmente

Made in Heaven foi tudo menos uma sessão de estúdio normal. Freddie Mercury gravou suas vocais nos últimos meses de vida, deixando instruções para que Brian May, Roger Taylor e John Deacon completassem as composições depois. May descreveu o processo como “estranho e traumático”.

May passou “horas, dias e semanas” trabalhando em cada fragmento das performances de Freddie, passando o dia inteiro ouvindo a voz do amigo, polindo e lapidando. Não era apenas técnica: era luto condensado em forma de estúdio. Havia momentos em que começava a comentar algo sobre a qualidade de uma performance, até que se dava conta de que Freddie não estava mais lá. Isso exigia que ele saísse do estúdio para se recuperar.

Mas a percepção mudou com o tempo. Contrariando a melancolia inicial, a percepção de May sobre Made in Heaven se transformou. Quando finalmente conseguiu ouvir o álbum completo em paz, descobriu que não havia ali apenas dor — havia propósito.

Uma estrutura que resiste melhor que parece

Made in Heaven coloca lado a lado faixas que datam de épocas radicalmente diferentes. Algumas foram gravadas ainda nos anos 1980, outras nos últimos meses de vida de Freddie, enquanto algumas vieram de álbuns solo de Mercury anteriormente não aproveitados. “Bohemian Rhapsody” teve uma estrutura obsessivamente planejada. Made in Heaven é um colcha de retalhos — e exatamente isso que o torna especial, na visão de May.

O álbum contém 13 faixas, incluindo a mais curta do Queen (“Yeah”, com 4 segundos) e uma das mais longas, uma faixa oculta com quase 23 minutos. Há experimentalismo, há pop convencional, há baladas. É fragmentado — deliberadamente. E foi exatamente essa fragmentação que exigiu que os três membros remanescentes se sentassem juntos e fisicamente remontassem o Freddie que deixou para trás.

Roger Taylor afirmou que décadas de trabalho prepararam o Queen para isso, que conheciam Freddie tão bem que conseguiam intuitivamente completar frases e melodias que ele deixou inacabadas. Isso não é produção — é canalismo. É adivinhar o que um fantasma teria feito.

O que diferencia emoção de nostalgia

A reavaliação de May de Made in Heaven não ocorre sozinha. O álbum alcançou o #1 nas paradas britânicas e vendeu aproximadamente 20 milhões de cópias mundialmente, um sucesso que afasta a hipótese de que o carinho de May é apenas saudade pessoal. Números não mentem — a audiência reconheceu algo ali.

Mas há um detalhe crítico: Made in Heaven nunca foi reclamado como um “clássico do Queen” na mesma categoria de A Night at the Opera ou The Game. Culturalmente, sempre ocupou uma posição secundária — respeitável, mas menor. Talvez por ser póstumo. Talvez por ser incompleto, tecnicamente falando. May desafia exatamente essa hierarquia ao dizer que justamente a fragilidade e a urgência do álbum são suas fortalezas.

Quando um criador rejeita sua obra mais aclamada para elevar seu trabalho mais contestável, ele não está sendo contraditório — está sendo honesto. Made in Heaven exigiu coragem emocional de uma forma que hits anteriores não pediram. Exigiu que May confrontasse tanto a morte de um colega quanto a morte de uma era. Nenhuma guitarra consegue fazer isso. Nenhuma produção consegue replicar aquilo.

Por isso o álbum resiste. Por isso o guitarrista volta a ele com frequência. Porque Made in Heaven não é um produto — é um documento de como três homens transformaram luto em ritmo, ausência em voz, e fragmentos em um todo que continua falando ao mesmo tempo que guarda silêncio.

Fonte: rollingstone.com.br

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