Apenas Coisas Boas, de Daniel Nolasco, chega aos cinemas nesta quinta-feira, 25 de junho, na semana em que é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ — uma coincidência estratégica que revela mais do que parece. Nolasco nasceu em Catalão, no interior de Goiás, e escolheu filmar seu primeiro longa de ficção justamente nessa cidade, criando um espelho perturbador entre o lugar de origem e o cenário de repressão que a narrativa exibe. Não é apenas um filme que chega aos cinemas: é uma volta do diretor à sua própria geografia, carregada de outras intenções.
Resumo rápido
- Estreia: 25 de junho de 2026 nos cinemas
- Duração: 1h 44min
- Classificação: 18 anos
- Elenco principal: Lucas Drummond, Fernando Libonati, Liev Carlos
- Gênero: Drama queer ambientado em 1984
O cenário: um estado conservador como pano de fundo
A produção narra o encontro entre dois homens que se apaixonam e ficam juntos por mais de 40 anos, tendo Goiás—um dos estados mais conservadores do Brasil—como cenário. A narrativa se passa em 1984, numa região rural de Batalha das Neves, onde Antonio vive isolado, cuidando de sua pequena fazenda. Quando seu destino cruza com Marcelo, um motoqueiro solitário que sofre um acidente na estrada e é acolhido por Antônio, a isolação do personagem se quebra — mas a geografia continua marcada pela repressão que o filme nunca verbaliza completamente.
A linguagem do silêncio: como Nolasco construiu sua assinatura
Exibido na mostra competitiva do Olhar de Cinema, o longa inscreve-se no coração de um cinema queer que se recusa à exuberância e prefere o caminho da contenção, sendo um filme sobre o não-dito, o gesto suspenso, o corpo que deseja e resiste — e o faz sob o signo rigoroso da influência de Robert Bresson. Este não é um ato de recusa ao erotismo, mas de recusa à dramatização óbvia. Nolasco filma seus atores com frieza metódica e imensa delicadeza, extraindo deles uma fisicalidade discreta, quase antinaturalista, mas extremamente expressiva.
A abordagem vem diretamente de seus trabalhos prévios. Antes de Vento Seco, Nolasco dirigiu Mr. Leather, onde adentra a fundo no mundo do fetiche para mostrar os bastidores do concurso Mr. Leather 2018 — um documentário que não explicava, mas observava. Em seus filmes, o erotismo nunca aparece como provocação gratuita: é forma, é organização do olhar. Em Apenas Coisas Boas, essa naturalidade do explícito atinge talvez seu estágio mais depurado, e Nolasco filma com frieza metódica e imensa delicadeza.
Lucas Drummond e o peso do primeiro protagonista
O filme estreia com Lucas Drummond em seu primeiro protagonista de longa-metragem. Mas como o ator revelou em entrevista, isso não foi um prêmio caído do nada. Antes de Antônio, o ator carioca já havia passado por teatro, curtas, séries, roteiro e produção, e sua carreira não foi construída apenas à espera de escalações.
Antônio exige contenção e tempo de observação, e em Antônio o silêncio não é ausência de informação: é um modo de existir. O personagem carrega o ritmo rural da Catalão dos anos 1980 — um tempo dilatado, sem pressa. O filme insere Lucas dentro de gêneros historicamente filmados com outros corpos e outros desejos em primeiro plano: o faroeste e o policial, sendo uma raridade fazer um filme que trabalha esses gêneros no Brasil, e mais raro ainda em uma história de amor entre dois homens no Cerrado.
A estratégia de circuito: quando o cinema de festival encontra a sala comercial
Após circular por festivais internacionais, Apenas Coisas Boas chega ao teste mais difícil para boa parte do cinema LGBTQIA+ brasileiro: encontrar espaço no circuito comercial, principalmente porque ainda vivemos num mundo cheio de preconceitos. O lançamento nacional mais amplo está previsto para 2026, quando o filme deve alcançar novas plateias e continuar provocando diálogos sobre desejo, masculinidade, imaginação queer e a potência do afeto no campo.
A data de estreia — 25 de junho, dias antes do Dia do Orgulho no Brasil — não é acaso. É um gesto de visibilidade deliberada, mas também uma provocação: colocar em salas comerciais um filme que habita o interstício entre desejo e contenção, que recusa o grito para preferir o sussurro. Com este filme, Daniel Nolasco afirma sua voz como um dos principais nomes do cinema queer brasileiro, e dá um salto formal.
O que fica em aberto
Apenas Coisas Boas é uma meditação sobre o tempo, cuja narrativa se fragmenta, se dobra, se reconstrói por múltiplas temporalidades, onde o desejo não é linear, a memória não é confiável, e o que fica é a impressão de um encontro que jamais se completa, mas que altera para sempre a paisagem interior de seus protagonistas. Sua verdadeira conquista não é contar uma história de 40 anos em 104 minutos, mas documentar como o silêncio de homens reprimidos se torna o próprio cinema. Nolasco filma a volta para casa como um ato radical.
Fonte: rollingstone.com.br

