Justin Cary, baixista do Sixpence None the Richer, morreu na quinta-feira (18 de junho), dias após sofrer um acidente vascular cerebral. Ele tinha 50 anos. Mais que um aviso sobre a fragilidade do acesso ao sucesso no pop dos anos 1990, a morte do músico expõe como uma carreira construída em torno de uma única canção — por mais memorável que seja — pode obscurecer o talento que a sustentava.
Resumo rápido
- Justin Cary integrou o Sixpence None the Richer desde 1997 e participou do lançamento do álbum homônimo com o hit “Kiss Me”
- A vocalista Leigh Nash destacou a habilidade técnica de Cary em um riff de baixo na versão de estúdio de “Kiss Me”
- Cary tocou baixo para Counting Crows, Jennifer Knapp e Lee Brice durante sua carreira
- Taylor Swift aprendeu a primeira música em violão usando “Kiss Me” e mais tarde trabalhou com Cary em turnês, sem saber inicialmente que ele era membro da banda original
O invisível por trás do grande hit
Quando “Kiss Me” atingiu o número dois na Billboard Hot 100, o Sixpence None the Richer se tornou sinônimo daquela canção. Para a maioria dos ouvintes casuais, a banda era aquela voz etérea de Leigh Nash sobre um arranjo que parecia simples. Mas Nash, ao homenagear Cary, revelou que havia um riff de baixo na música que a “deixava extasiada” toda noite em apresentação. Era uma nota de rodapé na memória coletiva — o tipo de detalhe que cristalizava profissionalismo sem ganhar nenhum crédito em entrevistas de rádio.
A trajetória de Cary reflete uma verdade incômoda da indústria musical: músicos de session ou integrantes de bandas com catálogo concentrado em poucos sucessos raramente transcendem a narrativa daquela música. Cary trabalhou com artistas como Counting Crows, Jennifer Knapp e até Taylor Swift — que considerava “Kiss Me” a primeira canção que aprendeu em guitarra. Quando girava com Swift, Cary não mencionou estar no Sixpence None the Richer, comentando depois que “provavelmente deveria ter” contado, porque “ela teria feito um alarde disso”. O detalhe é revelador: a presença dele na história era tão cristalizada em “Kiss Me” que qualquer outro contexto parecia secundário, até mesmo para ele próprio.
A banda que quase desapareceu — duas vezes
O Sixpence None the Richer se dissolveu em 2004 e se reunificou em novembro de 2007, lançando o EP “My Dear Machine” em 2008 como seu primeiro lançamento oficial desde 2004. A interrupção de sete anos não foi apenas um hiato criativo; foi uma morte em câmera lenta de uma carreira que nunca conseguiu construir um segundo ato aceitável no mercado mainstream. A banda tinha um álbum de acompanhamento pronto, mas seu estúdio, a Squint Entertainment, desabou, deixando-a em limbo por anos.
O que tornava essa situação particularmente tensa para Cary era o fato de que ele chegou ao Sixpence exatamente quando a oportunidade parecia garantida. Ele ingressou em 1997, apenas — um timing quase cinematicamente perfeito. Mas entrar em uma banda no auge não é o mesmo que construir uma carreira sustentável. Décadas de aparições esporádicas, reuniões para turnês, e um catálogo que as rádios continuava tocando sem nunca gerar nova demanda. A morte repentina de Cary aos 50 encerra não apenas uma vida, mas deixa em aberto a questão de quantos músicos de talento vivem carreiras de uma música só.
Uma vida entre bastidores que merecia mais luz
Nash descreveu Cary como “gentil, talentoso e uma das pessoas mais engraçadas” que conheceu, observando que pararia sempre que ele tivesse uma história para contar. Esses detalhes — a generosidade, o humor, a profissionalidade — não aparecem em nenhum certificado de ouro, nenhuma indicação ao Grammy, nenhuma lista de “maiores hits dos anos 1990”. Aparecem em mensagens de redes sociais após a morte, quando não há mais chance de retroalimentação.
“Ele não tinha a menor arrogância — completamente sem ego. Aquele tipo de pessoa que realmente faz uma band girar, mesmo que o público nunca saiba seu nome.”
Paráfrase condensada das homenagens de Leigh Nash
Cary sofreu um acidente vascular cerebral e foi tratado no Albany Medical Center em Nova York, falecendo em paz com sua esposa Linda ao seu lado. Uma campanha de arrecadação foi criada para apoiar a família, tendo levantado US$ 39.975 de uma meta de US$ 45.000.
O que fica em aberto agora
A morte de Justin Cary chega em um momento em que o Sixpence None the Richer tentava forçar uma relevância que nunca consolidou de verdade. Em 2023, a banda lançou a primeira nova canção em 11 anos; em 2024, Nash e o guitarrista Matt Slocum deixaram uma turnê no começo, citando “outros compromissos”. Era o sintoma de uma banda que existia mais na nostalgia do que na urgência criativa.
Cary permanecerá associado para sempre a “Kiss Me” — aquela canção que salvou o Sixpence None the Richer da obscuridade e, paradoxalmente, a aprisionou ali. Mas o riff que deixava Leigh Nash extasiada, a presença tranquila em estúdios de gravação, a profissionalismo em turnês internacionais: esses legados intangíveis morreram com ele, sem gravação, sem reconhecimento formal. A questão que fica é simples e terrível: quantos Cary existem na história da música, invisíveis atrás de uma canção? E quantas carreiras de talento real nunca saem daquele ponto de sombra onde ninguém consegue contar a história toda?
Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Variety, Billboard, Rolling Stone, CNN Brasil, Antena 1.
