Toy Story 5 conseguiu o impossível: estar entre os filmes melhor recebidos da franquia e, simultaneamente, ser a entrada com a nota mais baixa. Sua aprovação de 95% no Rotten Tomatoes é historicamente a menor desde 1995, mas coloca a série numa dimensão distinta — não como fracasso, mas como reflexo de uma franquia que aprendeu a envelhecer junto ao seu público original. A paradoxo revela menos sobre a qualidade do novo filme e mais sobre como o cinema de animação mudou de expectativa.
Resumo rápido
- Toy Story 5 alcança 95% de aprovação no Rotten Tomatoes com 148 críticas registradas
- A animação representa a menor pontuação entre os filmes de Toy Story, apesar de ser uma nota alta
- Toy Story 5 foi lançado nos Estados Unidos em 19 de junho e arrecadou 43.5 milhões de dólares mundiais
- O enredo acompanha os protagonistas enfrentando o avanço dos dispositivos tecnológicos no cotidiano das crianças
- O elenco de vozes originais inclui Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack; na versão brasileira, Marco Ribeiro, Guilherme Briggs e Mabel Cezar
O novo padrão de qualidade: por que 95% é uma “queda”
A reação inicial parece contraditória. O recorde anterior pertencia a Toy Story 4, que encerrou sua trajetória com 97% de aprovação da crítica, enquanto a animação acumula 94% de aprovação no Rotten Tomatoes antes mesmo de sua estreia oficial. Mas essa comparação oculta uma verdade maior sobre a indústria de cinema de animação.
Quando Toy Story 3 conquistou status de obra magistral com sua conclusão sobre crescimento e despedida, estabeleceu um piso emocional tão alto que qualquer continuação enfrentaria expectativas impossíveis. Tom Hanks havia dito em maio de 2019 que Toy Story 4 era o filme final da franquia, mas a possibilidade de um quinto nunca havia sido descartada. Toy Story 5 não compete contra seus antecessores — compete contra o tempo.
O diretor Andrew Stanton explicou que o filme é uma “realização de um problema existencial: que ninguém realmente está brincando com brinquedos anymore” e questiona o que significa o aumento do tempo de tela para as crianças. Essa escolha temática não é decorativa. É a franquia conversando consigo mesma sobre sua própria relevância — e isso muda como a crítica avalia sucesso.
Jessie em foco: a vaquera reclama o centro narrativo
Sete filmes de Toy Story passaram antes que Jessie ocupasse verdadeiramente o lugar de protagonista. Toy Story 5 segue Jessie, Woody e Buzz Lightyear enquanto lidam com a presença de Lilypad, uma tableta que se torna o novo brinquedo favorito de Bonnie. Mas essa premissa simples mascara uma escolha narrativa muito mais sofisticada.
Jessie volta à casa onde viveu com Emily, a menina que a acompanhou durante grande parte de sua vida antes de crescer e deixá-la atrás, e descobre que agora vive lá Blaze, uma menina com interesses e personalidade muito similares aos de Bonnie, e começa a trabalhar para aproximá-las. O filme não é apenas sobre brinquedos lutando contra tablets. Emily nunca esqueceu de Jessie e até batizou sua própria filha com o nome de Jessie, demonstrando que a presença do brinquedo teve grande impacto.

Essa reviravolta reposiciona toda a crise existencial de Jessie — seu medo de abandono, sua cicatriz de desapego — não como derrota, mas como legado. A tecnologia no filme não é vilã, e sim uma personagem tão confusa quanto qualquer brinquedo. Enquanto a alta tecnologia Lilypad e a atemporal Jessie parecem ser opostos polares, elas têm uma coisa grande em comum: elas farão qualquer coisa para ajudar sua criança.
Ranking: a ordem que importa mais que os números
O feed original coloca os filmes numa hierarquia tradicional (pior para melhor), mas essa ordem mascara o que a crítica realmente diz sobre cada entrada:
- Toy Story (1995): Um dos filmes mais importantes da história de Hollywood, iniciando a era das animações 3D e lançando a Pixar ao estrelato, além de ser pura diversão, cheio de ideias inteligentes e personagens marcantes. A dinâmica de rivalidade entre o cowboy clássico e o boneco espacial moderno continua sendo uma aula de roteiro e estabeleceu a fórmula da Pixar: mundos secretos escondidos à vista de todos e personagens com motivações profundamente humanas.
- Toy Story 2 (1999): Até hoje, a melhor continuação da Pixar, pegou todas as fundações do original e foi ao infinito e além. O filme introduziu Jessie, cujo arco sobre abandono gerou uma das cenas mais tristes da história da animação, e equilibra perfeitamente o humor de aventura com reflexões profundas sobre mortalidade e o medo de ser esquecido.
- Toy Story 3 (2010): Emocionou uma geração inteira ao mostrar Andy se despedindo dos brinquedos antes de entrar na faculdade, considerado por muitos fãs o capítulo mais emocionante da saga e um fenômeno de bilheteria. Os temas da descartabilidade e do senso de pertencimento ganham camadas mais extremas, e o final, em que são integrados a um novo lar, conclui de forma brilhante o arco dos brinquedos.
- Toy Story 5 (2026): Um dos mais inteligentes filmes da franquia que sugere que o segredo para o sucesso destas aventuras também passa por localizar o momento em que eles são lançados, e o que é a atual natureza do brincar. Não compete por melhor filme — compete por mais relevante agora.
- Toy Story 4 (2019): Ainda é uma grande conquista da franquia, mostrando que há gás no tanque, com uma ótima nova coleção de brinquedos encabeçada por Garfinho e encontrando uma dinâmica interessante ao colocar Woody como coadjuvante dentro do quarto de Bonnie. Mas sofre com o peso de uma conclusão que muitos já consideravam perfeita no terceiro filme.

Quando tecnologia não é inimiga, mas espelho
A maior aposta de Toy Story 5 não está em seu confronto com tablets, mas em sua recusa em demonizá-los. A ameaça não surge de um vilão tradicional como Sid, Lotso ou Stinky Pete, mas de uma situação muito mais cotidiana: a dificuldade de crescer em um mundo cada vez mais dominado por telas e redes sociais. Os juguetes chegam à conclusão de que os dispositivos não são algo ruim como tal, e que até brinquedos eletrônicos como Buen Rollito são deixados de lado pelas crianças em favor da próxima grande coisa, é o ciclo da vida dos brinquedos, mas não por isso deveriam se sentir pior nem se considerar menos (nem mais) que o resto.
Isso é radicalmente diferente de outros filmes de “tecnologia vs. humanidade”. Aqui, Lilypad aprende que prejudicar Bonnie não é ajudá-la. Aqui, velhos brinquedos entendem que sua obsolescência não é morte — é transição. Buzz Lightyear e Jessie por fim se declaram e se beijam antes de se separarem e voarem uns para casa de Bonnie e outros para casa de Blaze, um final que soa mais a aceitação que a vitória.
O que fica em aberto
Taylor Swift anunciou que contribuiu com uma canção original para o filme, “I Knew It, I Knew You”, que foi lançada em 5 de junho e alcançou número um no Billboard Global 200, a primeira música número um deste chart para ambos Disney e Pixar. Esse detalhe importa porque marca Toy Story 5 como produto do seu tempo — musical, cultural, imediato — não como obra que aspira à atemporalidade dos primeiros três filmes.
A franquia aprendeu algo crucial nestes 31 anos: envelhecer junto a seu público é mais valioso que tentar permanecer eternamente jovem. Toy Story 5 não precisa ser melhor que Toy Story 3. Ele apenas precisa reconhecer que infância, tecnologia, abandono e conexão são problema diferente de 2010 — e que seus brinquedos ainda têm algo útil a dizer sobre como vivemos agora.
Fonte principal: observatoriodocinema.com.br. Informações complementares: Rotten Tomatoes, Pixar, Rolling Stone Brasil, Variety, Deadline, Wikipedia.
