Pixar confirmou oficialmente que seu próximo filme original, Gatto, marcará o fim da era do estilo CGI 3D que a marca carrega desde 1995, chegando aos cinemas em 4 de março de 2027 no Brasil. Mas o que parece ser apenas uma escolha artística é, na verdade, uma resposta direta a uma mudança maior na indústria de animação: a vitória do filme letão Flow, animação em estilo hand-painted criada em software de código aberto, que bateu tanto Pixar quanto DreamWorks no Oscar em 2025.

A Pixar quebra seu próprio molde — e o timing não é coincidência
Durante 30 anos, a Pixar definiu o padrão visual de animação. Quando Toy Story chegou em 1995 como o primeiro longa-metragem totalmente computadorizado, reescreveu as regras da animação e tornou o CGI 3D o padrão da indústria por três décadas. O problema agora? Essa mesma identidade visual se tornou tão reconhecível que parece previsível — e no Oscar de 2025, a Academia preferiu um filme feito em software gratuito.
Gaston Ugarte, designer de cenários da Pixar, revelou que o estúdio precisou construir uma infraestrutura de produção inteiramente nova para viabilizar essa visão, combinando modelagem 3D tradicional com desenho manual sobreposto. Não é um ajuste cosmético — é uma aposta tática.
Resumo rápido
- Estreia no Brasil: 4 de março de 2027 nos cinemas
- Elenco: Mark Ruffalo (Nero) e Laurence Fishburne (Rocco)
- Diretor: Enrico Casarosa (criador de Luca)
- Estilo: Mistura hand-painted 2D com CGI 3D moderno, inspirado em pintura aquarela
- Posição na história da Pixar: 32º longa-metragem e primeiro a abandonar CGI puro
O novo visual: aquarela em movimento, gatos em neon noir
Em vez do padrão arredondado e expressivo que vimos em Toy Story, Monstros SA e Procurando Nemo, Gatto apresentará um visual completamente novo, baseado em ilustração pintada em estilo aquarela, aplicado a toda a duração do filme. Mas não é apenas textura superficial.
A Pixar parece buscar um caminho mais pictórico, com texturas que lembram pintura manual combinadas à computação gráfica, colocando o filme em diálogo com uma tendência recente da animação, vista em produções que passaram a brincar mais com traços, imperfeições, cores chapadas e estilos menos “polidos”. A diferença crucial: enquanto outros estúdios adotam esse estilo como economia de produção ou pastiche nostálgico, Pixar usa o mesmo híbrido 2D-3D como lingua visual completa e controlada.
A ideia parece menos polida e mais próxima de uma ilustração viva, com as águas de Veneza surgindo em ondas aquareladas, enquanto a cidade aparece com uma identidade visual própria, distante de uma simples reprodução realista.

Elenco que sinaliza mudança maior: Ruffalo e Fishburne saem do MCU para Pixar
Mark Ruffalo e Laurence Fishburne vão dividir a tela pela primeira vez em Gatto, marcando a primeira participação de ambos os atores em um projeto de voz para o estúdio Disney, e revelando que os dois nunca compartilharam cena no MCU, apesar de seus papéis entrelaçados na franquia Marvel. Isso que parece curiosidade é na verdade escolha editorial clara.
O filme será a chance de a Pixar consolidar uma nova frente criativa com animações de tonalidade adulta, elencos de peso, e roteiros que tratam personagens como moralmente ambíguos, não arquétipos heroicos. Em Gatto, Ruffalo pode explorar um personagem preso em um sistema que o explora, sem as amarras de ser parte de um time de salvadores do mundo, enquanto Fishburne ganha espaço para caracterizar um vilão sem precisar resolver arcos de redenção futura.
Nero: o gato preto que questiona sua própria existência
Nero é um gato preto vivendo em Veneza que não consegue nadar e deve navegar por uma cidade cheia de pessoas que são supersticiosas sobre ele. Ele é apaixonado por música que vive à margem da sociedade, endividado com um poderoso chefe da máfia felina, é forçado a embarcar em uma jornada inesperada ao lado de Maya, uma jovem artista de rua.
Rocco: autoridade no beco, fraqueza para objetos brilhantes
O protagonista é Nero, um gato preto dublado por Mark Ruffalo, que vive na cidade italiana e acaba envolvido com um grupo de gatos encrenqueiros, liderado por Rocco, um chefe do submundo felino que terá a voz de Laurence Fishburne. O teaser revela que tanto Nero quanto Rocco — chefe da máfia e tudo — se distraem facilmente com uma lâmpada balançando.
Por que Veneza é o cenário perfeito para essa reinvenção
A escolha de ambientar Gatto em Veneza não é casual; é fundamental para a estratégia visual. Segundo Pete Docter, criativo-chefe da Pixar, o filme tenta “capturar a textura pictórica de Veneza enquanto ainda preserva a profundidade e dimensão que você espera da Pixar”. O estilo hand-painted aquarelado torna-se inseparável do local: uma cidade construída sobre arte, água e camadas históricas.
Veneza aparece como um espaço cheio de becos, telhados, canais e sombras, um ambiente perfeito para uma história de gatos de rua com clima de aventura e crime. Diferentemente de Luca, que celebrava a leveza estival da Riviera, Gatto convida o espectador para as sombras da cidade — noir em aquarela.
O que fica em aberto
A diferença entre sucesso e fracasso aqui não é apenas sobre números de bilheteria — é sobre se o público está disposto a seguir a Pixar em territórios visuais completamente novos. Se funcionar, pode abrir caminhos para que outros estúdios experimentem com linguagens visuais igualmente radicais. Se não funcionar, pode reforçar a ideia de que o estilo Pixar dos últimos 30 anos era menos uma escolha estética e mais uma necessidade de mercado.
O filme foi originalmente programado para estrear em 18 de junho de 2027, mas foi antecipado para 5 de março de 2027 para evitar competição direta com O Mandaloriano e Grogu no Disney+ e Shrek 5 — o que sugere confiança interna: a Pixar quer testar o terreno antes de filmes gigantes chegarem ao mercado.
Fonte: thedirect.com
