Alice Cooper perdeu seu cartão de crédito em um posto de gasolina no Arizona, mas ganhou uma história que resume melhor do que qualquer entrevista por que o rock ainda importa. Um morador local chamado Geoff Guy encontrou o objeto, rastreou o cantor através da organização sem fins lucrativos que Cooper mantém em Phoenix, e devolveu o cartão. Em troca, o lendário rockeiro enviou uma cópia autografada do seu novo álbum, The Revenge of Alice Cooper (2025).
O detalhe que transforma isso de anedota em sinal cultural é simples: Guy não conhecia pessoalmente Alice Cooper. Ele apenas sabia que o cantor havia marcado época para gerações inteiras de fãs. Isso não é apenas sobre gratidão — é sobre como uma figura do rock consegue ainda representar algo que transcende transações comerciais.
O álbum que marca 51 anos de história reunida finalmente em estúdio
The Revenge of Alice Cooper, lançado em julho de 2025, carrega um peso histórico raro: é o primeiro disco gravado com todos os integrantes originais da banda Alice Cooper desde Muscle of Love, em 1973. Meio século separa esses dois projetos. Entre eles, Alice Cooper (nome artístico de Vincent Furnier) se tornou uma instituição — tanto do shock rock quanto da cultura pop americana — enquanto a banda original dispersou-se, cada membro seguindo sua própria trajetória.
Essa reunião não é nostalgia processada para streaming. A volta aos estúdios com a formação original funciona como fechamento de um ciclo aberto desde o declínio do grupo nos anos 1970. Para fãs que acompanharam Cooper através de décadas de turnês solo e personagem teatral, o álbum é menos um retorno e mais uma confirmação: o poder criativo daquele núcleo original nunca desapareceu.
Turnê europeia marca o retorno em grande escala
Cooper abriu sua turnê europeia em Istambul, na Turquia, no sábado, 13. A rota passa por Espanha, Bélgica, Dinamarca e finaliza na Itália em 12 de julho. Trata-se do primeiro grande ciclo de shows com a banda original reunida desde 1973 — um acontecimento que justifica a posição central do rock veterano no calendário de turnês internacionais.
A turnê não é apêndice do álbum novo. É a consequência lógica dele. Quando uma banda toca junto depois de 51 anos, o público quer ver isso ao vivo, não apenas em estúdio. A duração da rota europeia (de fevereiro a julho) reforça que Cooper e seus parceiros entendem a importância cultural do momento.
O terceiro livro que tenta resolver o enigma do personagem
Alice Cooper anunciou recentemente Devil on My Shoulder: A Memoir, com lançamento previsto para 6 de outubro. Esta é a terceira autobiografia de um homem que agora tem 78 anos, após Me, Alice (1976) e Golf Monster (2007). A progressão dos títulos é reveladora: do “eu” autobiográfico básico à obsessão por golfe (seu hobby declarado), agora para “o diabo no meu ombro” — uma metáfora que promete finalmente desvendar a relação entre Vincent Furnier, o homem sóbrio e religioso, e Alice Cooper, o “Padrinho do Shock Rock”.
A editora promete explorar justamente essa dicotomia. O interessante é que, após cinco décadas encarnando um personagem concebido no final dos anos 1960, Cooper ainda sente necessidade de explicá-lo. Isso pode significar que o público nunca deixou de questionar: quem é de verdade? O livro funciona como tentativa final de reconciliação entre identidades — algo que talvez nenhuma performance ao vivo conseguir resolver completamente.
O fato de que um fã desconhecido tenha ajudado Cooper sem buscar reconhecimento prévio, e recebido um presente em troca, funciona como parábola. Alice Cooper transformou provocação em personagem durável. Geoff Guy apenas devolveu um cartão de crédito. Ambos, porém, operaram fora da lógica comercial óbvia. E é exatamente por isso que a história importa.
Fonte: rollingstone.com.br