O Horizon enfrenta o dilema do luto tecnológico e questiona se a IA resolve o que é fundamentalmente humano

Inteligência artificial como ferramenta de consolação é o ponto de partida de O Horizon, filme que chegou aos cinemas em fevereiro de 2025 após estrear no Festival de Cinema de Santa Bárbara. A premissa central é simples e perturbadora: uma neurocientista usa um chatbot de IA para reconstruir conversas com seu pai falecido, tentando processar o luto através da ilusão de continuidade. Mas a narrativa não toma partido — e essa ambiguidade é justamente onde o filme ganha força.

Cena do Horizon explorando o tema de luto tecnológico e inteligência artificial
(Reprodução / Estúdio)

O que o filme revela sobre a falsa intimidade tecnológica

Maria Bakalova, que interpretou Abby em O Horizon após seu trabalho em Guardiões da Galáxia Vol. 3, explica em entrevista que a obra deliberadamente recusa julgamentos simples sobre a IA. Em suas palavras: “não é uma decisão clara não fazê-lo. Por isso o filme funciona — não toma partido em extremos, e não é condenador num mundo que condena demais”. Essa neutralidade aparente esconde uma crítica mais profunda: a ilusão de que tecnologia resolve problemas existenciais.

Adam Pally, que integra o elenco, vai direto ao ponto da fragilidade. Para ele, qualquer conversa com um chatbot é inerentemente unilateral — o programa amalgama dados da internet e simula respostas, mas nunca oferece reciprocidade genuína. “É como perguntarem à IA quem é o melhor jogador de basquete do planeta e ela responde: ‘bem, não posso dar uma resposta definitiva, mas é uma ótima pergunta'”, exemplifica Pally. Nenhuma surpresa. Nenhuma contradição. Nenhuma verdade que desafie o usuário.

O risco que Pally identifica é especialmente cortante: usar um chatbot do pai falecido é “se colocar para mais ilusões falsas de que a pessoa não se foi”. E ele adiciona uma pergunta que paira sobre toda a premissa do filme: “O pai da Abby vai morrer toda vez que a internet cair?”

Como o filme transforma luto em esperança sem ser ingênuo

Aqui está o movimento mais interessante da narrativa. Bakalova não nega que a IA a ajuda — mas como ferramenta temporária de transição, não como solução permanente. Abby “usa o melhor do chatbot e sabe quando parar, quando percebe que está a afastando da realidade e de seus relacionamentos reais”. O luto não é superado pela IA. É processado através dela.

A cineasta Madeleine Rotzler, diretora e roteirista, construiu o filme em torno de uma ideia rara no cinema de 2025: que às vezes é apenas necessário estar triste. Bakalova resume: “você tem que sentir os sentimentos para continuar”. Não há atalho. Não há app. Há apenas o reconhecimento de que o tempo e a aceitação são inseparáveis.

Representação visual sobre inteligência artificial e luto tecnológico, ilustrando o dilema entre máquinas e humanidade
(Reprodução / Estúdio)

O elenco também inclui David Strathairn (Warren), Maggie Grace (Evan), Alysia Reiner (Dr. Sandra Williams) e Nicholas Podany (Anton), formando uma rede de relacionamentos reais que funcionam como contrapeso à ilusão digital.

O que o filme pede ao espectador que ele não entrega

O Horizon propositalmente “faz mais perguntas que respostas”, como nota Bakalova. E isso é tanto força quanto limitação. Num mundo onde IA generativa já replica vozes e rostos com precisão assustadora, o filme chegou em momento estranho: quando Bakalova gravou em 2022, parecia ficção científica. Agora parece quase documentário social.

Pally, mesmo crítico do conceito, reconhece o lado esperançoso: para quem enfrenta “luto paralisador”, talvez algo assim ajude. Mas ele preferiria uma gravação em vídeo do falecido — algo real, não um código interpretando realidade. Há uma honestidade nessa preferência que o filme não ignora.

O que torna O Horizon relevante não é oferecer resposta sobre se devemos usar IA para recriar falecidos. É forçar o público a admitir que o desejo é humano demais, e a tecnologia é insuficiente demais, para que a escolha seja simples.

Fonte: thedirect.com

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