Por que Luis Ara incluiu rivais da Itália em Tetra: Acreditar de Novo

O documentário Tetra: Acreditar de Novo chega ao catálogo da Netflix neste domingo (7) com uma abordagem rara entre produções sobre futebol: dar voz aos perdedores. O diretor Luis Ara revela em entrevista exclusiva por que ouvir jogadores italianos, holandeses e norte-americanos foi essencial para transformar um título mundial em história humana, e não apenas em celebração de vitória.

Por que incluir depoimentos de rivais mudou a narrativa do documentário?

Para Ara, a perspectiva dos adversários não era um detalhe estético, mas o elemento que tornava a conquista compreensível. Conforme explicou: “quem ama o esporte sabe que se perde muitas mais vezes do que se ganha. A visão de quem perde também é importante por dois motivos: para compreender o peso da derrota e para acrescentar valor ao triunfo”. O diretor destaca que os italianos, em particular, carregam uma cicatriz invisível: “eles falam algo muito interessante: ‘nós somos vice-campeões do mundo e a história se esquece de nós’. Isso também é um pouco injusto. A diferença foi um pênalti”.

Essa inclusão de vozes perdedoras faz com que o filme funcione em duas camadas simultâneas. De um lado, documenta o sucesso brasileiro através de material inédito gravado pelos próprios atletas durante o torneio. Do outro, humaniza a derrota ao dar espaço para que os rivais expliquem o que significou estar tão próximo e não conseguir. O resultado, segundo Ara, é que “a audiência pensa um pouco mais no valor do triunfo e também no valor da segunda equipe, que foi a Itália nesse caso”.

Diretor Luis Ara explica importância de ouvir rivais italianos para Tetra Acreditar de Novo
(Reprodução / Estúdio)

Como Luis Ara descobriu quem realmente eram os protagonistas?

Um aspecto crucial que diferencia Tetra: Acreditar de Novo de outros documentários dirigidos por Ara — como Ronaldinho Gaúcho, Para Sempre Chape e Brasil 2002: Bastidores do Penta — foi justamente a mudança no ponto de partida. Ao contrário de trabalhos centrados em figuras individuais, o diretor teve que descobrir, durante o processo criativo, quem merecia ocupar a narrativa.

“Você pode ter uma ideia prévia de quem deveria ser esse personagem principal, mas até que você não comece a falar com todos, você não sabe exatamente quais serão os personagens mais importantes para a história”, explicou. Nomes como Romário, Bebeto e Dunga são naturalmente lembrados. Mas Ara identificou que figuras como Jorginho, Gilmar (goleiro que documentou bastidores em vídeo) e Ricardo Rocha carregavam peso narrativo diferente — alguns por performances em campo, outros pelo acesso a material inédito que possuíam.

O diretor insistiu em uma característica que separa essa produção de simples compilação: “a equipe foi o que fez ganhar essa Copa. Nós tentamos que fosse equilibrado o ângulo e a presença de todos os personagens, e não focar em um só”. Isso explica também por que Romário foi o último a aceitar participar. Conforme Ara revelou, o “Baixinho” rejeitava inicialmente porque se considerava apenas parte de um todo maior: “ele falava: ‘eu já falei muito. Essa é uma conquista de toda a equipe'”. A insistência valeu: o momento em que Romário retorna ao Rose Bowl de Los Angeles — onde levantou a taça — virou uma das passagens mais emocionantes do documentário.

Luis Ara diretor explicando por que ouvir rivais foi essencial para Tetra Acreditar de Novo
(Reprodução / Estúdio)

Qual é o diferencial narrativo de focar em emoções em vez de táticas?

Ara aposta numa estratégia oposta à maioria dos documentários esportivos: para ele, o futebol é apenas o veículo. O verdadeiro conteúdo é a humanidade. “Quando você vai para o interior das pessoas que viveram isso e elas falam do que sentiram, automaticamente fica algo muito mais universal”, disse o diretor.

Um exemplo marca essa filosofia: a comemoração de Bebeto após marcar contra a Holanda, quando simulou embalar um bebê ao lado de Romário e Mazinho. Para Ara, a cena comunica muito além de um gol: “mostra um cara vivendo algo tão importante longe da família, longe de um momento tão importante como ser pai. E também dois amigos dizendo: ‘como eu não vou comemorar com ele?'”. A dinâmica não é tática. É intimidade em momentos de glória.

Essa escolha editorial torna o documentário acessível até para quem não viveu 1994 ou desconhece futebol. A história deixa de ser sobre um resultado específico e passa a ser sobre pessoas processando emoções extremas, longe de casa, sob pressão impossível. É um ponto de partida que qualquer espectador reconhece independentemente de afinidade com esporte.

O que vem depois para Luis Ara?

Ao ser questionado sobre seus próximos passos, Ara confirmou que continua dentro do universo esportivo, mas sem descartar expansões para outras áreas. “Tem muitas histórias para contar, inclusive não só do esporte. O Brasil tem histórias muito lindas, inspiradoras, que conectam muito com a audiência”, revelou. Seu objetivo permanece o mesmo: “quando alguém me agradece por ter a oportunidade de lembrar e reviver algo, para mim esse é o objetivo cumprido”.

Fonte: rollingstone.com.br

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