A Square Enix lançou um trailer comemorativo para celebrar os 35 anos da série Mana, uma das franquias mais queridas do universo dos RPG de ação japoneses, cuja origem remonta ao dia 28 de junho de 1991, quando Final Fantasy Adventure chegou ao Game Boy no Japão. Mas por trás dessa celebração ordeira está uma verdade incômoda que a onda retrospectiva tenta varrer para debaixo do tapete: a série está segura apenas no passado.
Resumo rápido
- Visions of Mana chegou às lojas a 29 de agosto de 2024 para PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S e PC via Steam e Microsoft Store
- Foi o primeiro título principal da série desde Dawn of Mana, lançado em 2006, um intervalo de quase 18 anos
- As vendas ficaram abaixo das expectativas da editora, e no próprio dia de lançamento o estúdio Ouka Studios foi encerrado pela sua empresa-mãe, a NetEase
- Desconto de 60% em Visions of Mana na Steam e promoção em outras plataformas
De Game Boy em pixel art ao lançamento que ninguém pediu
Conhecido no Japão como Seiken Densetsu: Final Fantasy Gaiden, e lançado mais tarde no Ocidente com o título Final Fantasy Adventure na América do Norte e Mystic Quest na Europa, o jogo surgiu inicialmente como um spin-off da série Final Fantasy. Desenvolvido sob a direção de Koichi Ishii para a portátil da Nintendo, o título misturava combate em tempo real com elementos de RPG, num estilo que lembrava The Legend of Zelda mas com uma camada de progressão estatística e uma narrativa própria.
O que é curioso examinar agora é como Mana evoluiu não como uma série que buscava ser original, mas como uma propriedade que a Square Enix eventualmente deixou hibernar. A recepção da série Mana tem sido muito desigual, com os primeiros jogos recebendo avaliações significativamente maiores de críticos do que títulos mais recentes. Secret of Mana foi considerado um dos melhores action role-playing games 2D já feitos, e sua música inspirou vários concertos orquestrais, enquanto os jogos da série World of Mana receberam avaliações consideravelmente inferiores.
Eighteen anos depois: um retorno que chegou quando a memória já havia esquecido
Visions of Mana é o primeiro mainline installment da série em mais de 15 anos, lançado em 2024 pela developer Ouka Studios em parceria com a Square Enix. Mas a longa pausa não trouxe renovação — trouxe peso. Game journalists elogiaram os personagens, o sistema de combate e o design do mundo, enquanto a história foi vista como não original.
A questão editorial real aqui é que a Square Enix gastou recursos desenvolvendo um novo capítulo de Mana depois de quase duas décadas de dormência, apenas para enfrentar vendas decepcionantes e, pior, o fechamento do próprio estúdio responsável no lançamento. As vendas ficaram abaixo das expectativas da editora, confirmando que a demanda do fã por um novo Mana era provavelmente menor do que a memória coletiva da internet sugeria.
O merchandising da nostalgia como estratégia de sobrevida
Os descontos agressivos em Steam (60% nos primeiros meses), Nintendo eShop no Japão, GOG e PlayStation Store funcionam menos como promoção e mais como gestão de crise. A Square Enix está tentando recuperar investimento em um título que não conquistou seu público inicial, apelando para fãs que talvez estejam ligados à série por Zelda-like gameplay dos anos 90, não pelo que Visions of Mana realmente é.
O projeto contou com a participação de vários veteranos da franquia, incluindo o próprio Koichi Ishii na supervisão dos designs de criaturas e o produtor Masaru Oyamada. Mesmo assim, o pedigree não foi suficiente. O que isto diz é que em 2024, uma série de RPG de ação, por mais clássica que seja, precisa de mais do que uma ID de marca conhecida — precisa de identidade narrativa clara, inovação mecânica que não seja apenas aérea, ou um hook cultural que não seja apenas nostalgia.
Por que o passado vende melhor que o presente
Enquanto Visions of Mana luta com vendas abaixo da meta, remakes e coleções de Mana — Secret of Mana, Trials of Mana, Legend of Mana — encontram espaço em Nintendo Switch, Xbox Game Pass e GOG. Secret of Mana foi considerado um dos melhores action role-playing games 2D já feitos, e sua música inspirou vários concertos orquestrais. O mercado está dizendo algo claro: ela quer jogar Mana como era, não como é.
A celebração dos 35 anos é genuína, mas também estratégica. É mais fácil vender uma retrospectiva que reconecta o fã à sua infância no Game Boy do que convencê-lo de que um novo Mana é necessário em 2024. A Square Enix sabe disso. Por isso o trailer comemorativo não é apenas marketing — é admissão silenciosa de que a série é uma relíquia bem-vinda, não uma franquia em expansão.
O que fica em aberto
A série Mana segue viva nos remakes e nas promoções sazonais, mas Visions of Mana levanta uma pergunta difícil: existe mercado real para novos jogos em uma franquia que só vende quando oferece o antigo? A pausa de 18 anos entre mainline titles não foi uma estratégia de construção de demanda — foi inércia. E quando o estúdio responsável pelo retorno é encerrado no próprio dia de lançamento, é difícil vender isto como sucesso, não importa quantos descontos sejam aplicados nas lojas digitais.
Fonte principal: observatoriodocinema.com.br. Informações complementares: OtakuPT, Noisy Pixel, Wikipedia Mana Series, Square Enix Press Hub, Steam.


