Sony bane produtora brasileira e deleta 900 jogos da PlayStation Store

A Afil Games, estúdio brasileiro responsável por títulos como Collie Call e Cute Bonfire, anunciou que vai remover mais de 900 jogos da PlayStation Store após a implementação de novas diretrizes mais rígidas de publicação na plataforma. Dezenas de milhares de títulos foram removidos da PlayStation Store somente em 2026, mas o caso da produtora brasileira marca um ponto crítico: o estúdio afirmou estar “comprometido em trazer novas experiências aos seus jogadores no Xbox One, Xbox Series, Microsoft Store e Nintendo Switch.” Não é apenas um jogo deletado. É um modelo de negócio inteiro sendo expulso de um dos maiores ecossistemas de jogos do mundo.

A Sony admite uma fractura que sempre soube existir

A decisão da Sony está ligada principalmente à experiência do usuário e à credibilidade da plataforma. O aumento de jogos de baixa qualidade dificultava a descoberta de títulos relevantes, prejudicando a navegação. Mas há uma ironia estrutural aqui: a plataforma deixou essa situação crescer por anos. PlayStation recolhia 30% de cada venda desses jogos todo esse tempo.

O que muda agora não é a lógica. É a visibilidade. Enquanto esses jogos ficavam enterrados nas páginas 47 de buscas genéricas, ninguém se importava. Jogos independentes com ciclos de desenvolvimento longos perdiam espaço nas abas de novidades. O algoritmo da loja digital acabava priorizando o volume de atualizações diárias. A Afil Games e centenas de publishers similares lucravam com a incompetência (ou complacência) da Sony. Agora que ela quer curadoria real, é expulsão em massa.

O triângulo perfeito da exploração: asset flip, troféus fáceis, lucro garantido

Muitos jogos publicados por Afil Games parecem cópias diretas da mesma ideia básica, com asset flips. Todos têm listas de troféus extremamente fáceis. Mas por que isso funcionava? Porque no Brasil, esse fenômeno ganhou força entre jogadores que buscam completar conquistas rapidamente — os chamados caçadores de troféus.

Não é um problema exclusivamente brasileiro, claro. Em janeiro, a ThiGamesDE, editora que ocupava o quarto lugar em número de títulos na loja, teve mais de mil jogos removidos. A editora confirmou a saída através da sua conta oficial no X, pedindo aos jogadores que aproveitassem seus títulos pela última vez antes de serem removidos. Webnetic, com mais de 1.200 títulos, foi atingida em junho de 2026. A editora confirmou sua saída definitiva da plataforma.

O padrão era idêntico: cada um representava copy-and-paste do mesmo código, com apenas asset flips para diferenciação. Platina em 3 minutos. Venda de R$ 4. Repetir 900 vezes com variações regionais.

Outros plataformas estão assistindo — e apreensivas

Sony, Microsoft e Nintendo assinaram em conjunto uma declaração conjunta sobre o compromisso de tornar as suas plataformas mais seguras e com melhor curadoria, o chamado “Shared Commitment to Safer Gaming”. O estúdio afirmou estar “comprometido em trazer novas experiências aos seus jogadores no Xbox One, Xbox Series, Microsoft Store e Nintendo Switch.”

Mas aqui está o problema: se Microsoft e Nintendo fizessem limpeza igual, Studios como Afil Games não teria aonde ir. Steam receberia uma avalanche que a plataforma de Valve mal consegue filtrar. A Sony está sendo agressiva porque pode ser. Ela não é a mais leniente das três em padrão de qualidade — Microsoft e Nintendo também assinaram aquele compromisso, mas mantêm abordagens menos rigorosas.

O problema, no entanto, é estrutural. Nada impede que editoras semelhantes abram contas novas sob nomes diferentes e recomecem o ciclo. Enquanto os critérios de entrada na loja não forem mais exigentes, o combate ao shovelware é, em grande medida, um jogo de whack-a-mole.

O que fica em aberto: sustentabilidade dessa limpeza

A Afil Games está saindo. Em abril, nova vaga de remoções atingiu as editoras GoGame Console Publisher, VRCForge Studios e Welding Byte. Mas a pergunta real é: por quanto tempo Sony consegue manter essa pressão?

A limpeza ajuda a destacar jogos com maior investimento criativo no meio de milhares de opções disponíveis. A medida não afeta jogos já adquiridos pelos usuários, que continuam acessíveis nas bibliotecas pessoais. Tecnicamente, ninguém que comprou os 900 jogos da Afil perde acesso — apenas novos compradores são bloqueados. Mas a mudança de diretrizes é clara: a era do trash content como modelo de lucro na PlayStation Store terminou.

O que define “baixa qualidade” de agora em diante, porém, permanece vago. A Sony não emitiu comunicado oficial sobre os critérios exatos usados na seleção dos jogos retirados. Isso abre espaço para questionamentos legítimos sobre se a curadoria está sendo científica ou apenas reativa—e se próximas decisões afetarão indie games genuinamente criativos que ainda não ganharam tração.

Fonte principal: observatoriodocinema.com.br. Informações complementares: Push Square, GameVício, Mix Vale, Eurogamer.pt, Galaxia Nerd, TrueAchievements.

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