Jason Eady já lançou Tulsa Turnaround em 5 de junho de 2026, e o álbum funciona como ato de recuperação: não apenas um disco país tradicional, mas uma investida consciente de ressuscitar um som praticamente enterrado nas salas de bares de Oklahoma. Eady, artista country baseado no Texas, nascido fora de Jackson, Mississippi em 1975, tinha tudo para ficar no conforto de sua carreira — ganhou destaque com AM Country Heaven em 2012 e Daylight/Dark em 2013. Mas um encontro casual em 2023 o lançou a uma obsessão que transformou seus últimos dois anos.
Quando um bar em Tulsa reacendeu um som que quase morreu
O gatilho não foi acadêmico. Quando Eady esteve em Tulsa para uma apresentação enquanto promovia seu álbum Mississippi (2023), o produtor John Fullbright — um músico nativo de Oklahoma — o convidou para descer a um porão onde uma jam session acontecia por volta de 23 horas. Ali, em um espaço fechado que parecia suspenso no tempo, Eady ouviu vivo e tremendo o som que havia obsessionado Eric Clapton nos anos 1970: o Tulsa Sound, uma mistura de blues, blues rock, country, rock and roll e swamp pop dos fins dos anos 1950 e início dos 1960s.
O momento revelou um paradoxo: artistas considerados pioneiros do Tulsa Sound incluem J.J. Cale, Leon Russell, Roger Tillison e Elvin Bishop, mas três deles desapareceram na última década. J.J. Cale morreu em 2013, Leon Russell em 2016, e Steve Ripley (dos Tractors) faleceu em janeiro de 2026. Quando Eady e Fullbright entraram naquele bar, esse som não era memória de museu — era vivo, tocado por músicos locais que jamais deixaram Oklahoma, em salas que mantinham o Tulsa Sound vivo nas bares e dancehalls da cidade, longe da atenção nacional.
Foi suficiente. Eady compreendeu que não era apenas um cara ou um álbum — era um som inteiro saindo de Tulsa, e que ninguém de fora estava documentando seu presente vivo.
Um produtor nascido no som que precisava ser resgatado
John Fullbright nasceu em 23 de abril de 1988 e cresceu em Bearden, Oklahoma, uma cidade de 140 habitantes. A escolha dele como produtor não foi coincidência — foi arqueologia sonora. Fullbright é parte dessa linhagem de maneira orgânica: iniciou sua carreira como membro da banda Oklahoma Turnpike Troubadours e desenvolveu uma escuta que bebeu diretamente de Woody Guthrie, Townes Van Zandt, Randy Newman e Steve Earle.
Mas o detalhe crucial é que Fullbright compreende a genealogia. Quando Eady começou a mergulhar no Tulsa Sound e frequentemente trocava ideias com Fullbright, tendo dúvidas sobre o que dizer ao produtor quando fosse gravar, até que caiu a ficha de que ele poderia simplesmente pedir para Fullbright fazer isso mesmo. Isso transformou o projeto: em vez de Eady dirigindo para um estúdio em Nashville ou Los Angeles, Eady e Fullbright escolheram Farmhouse Studios na casa do falecido Steve Ripley — ele mesmo ex-proprietário do Church Studio que Russell havia aberto e transformado no centro do Tulsa Sound.
A gravação tornou-se, portanto, um ritual de herança: dois músicos de gerações diferentes (Eady com 50+, Fullbright com 38 anos), usando estúdio onde um dos mestres havia operado, para resgatar um som que seus criadores deixaram inacabado.
Um álbum que reconhece quem foi esquecido
Tulsa Turnaround tem 12 faixas com duração total de 41 minutos. O álbum apresenta 10 novas músicas de Eady e uma versão de um padrão de Tulsa. O foco central é a composição título, escrita com Ray Wylie Hubbard. Eady menciona ícones e locais como J.J. Cale, Leon Russell, a Gap Band e o Cain’s Ballroom sobre um riff de blues com vocais de apoio quase como um coral, levando a um refrão: ‘I’m doin’ that Tulsa Turnaround/Lord have mercy, what a sound’.
Mas a escolha de **não** fazer uma versão de “Tulsa Turnaround” de Kenny Rogers revelaria a diferença central entre preservação e ressurreição. Fans que assumiram que o álbum incluiria a música de Kenny Rogers se enganaram — aquela “Tulsa Turnaround” fala sobre um xerife de Omaha, enquanto a de Eady coloca Oklahoma’s segunda maior cidade no centro. Eady não estava coletando raridades — estava reconstruindo geografia emocional.
A estratégia não é apenas de preenchimento. Eady diz que tentou jogar o máximo de referências diferentes a Tulsa, com referências a sábado à noite no Cain’s, domingo de manhã no Church Studio, Mercury Lounge e todos os músicos locais. O álbum, portanto, funciona como mapa: não como disco “about” Tulsa Sound, mas como disco “of” Tulsa Sound, documentando quem ainda toca e onde.
O que fica em aberto depois que o mastro caiu
O risco latente é sentimental: Eady poderia ser visto como um texano explorando nostalgia de um som morto. Mas sua versão é descrita como ‘gritty, blues-infused, e masterfully understated slice of Americana, Texas Country, and Roots Rock,’ afastando-se do brilho over-produced de Nashville mainstream. Isso importa porque Eady não está vendendo pureza — está tocando o som como ele é agora, desgastado, vivo nas mãos de quem nunca saiu de Oklahoma.
Fullbright como produtor garante que não seja um disco de visitante. Eady diz estar animado com as reações, notando que a capa do álbum é dele, John e da banda, algo muito intencional, pensando nisso como sendo tanto um disco de John Fullbright quanto seu. Isso reposiciona a autoria: não é Eady “salvando” Tulsa, é Eady e Fullbright tocando juntos um som que pertence a ambos.
O maior risco agora não é a fidelidade histórica — é se essa obra consegue fazer o que Cale, Russell e Ripley não conseguiram em vida: colocar esse som na imaginação de gente fora de Oklahoma. O Tulsa Sound não precisa ser revivido como passado. Precisa ser ouvido como presente — e Tulsa Turnaround é, nesse sentido, um teste de se isso ainda é possível.
Fonte principal: rollingstone.com.br. Informações complementares: Rolling Stone, Wikipedia (Tulsa Sound, J.J. Cale, John Fullbright), Paste Magazine, Church Studio, Apple Music, Shazam.

