Dave Grohl revelou em 2000 seus 10 álbuns favoritos de todos os tempos em entrevista à revista britânica Melody Maker, uma seleção que permanece como mapa das decisões criativas da banda Foo Fighters até hoje. Enquanto se prepara para Rock in Rio 2026 — onde será headliner do Palco Mundo em 4 de setembro — o músico continua a herança dessas influências, agora reforçada pelo novo álbum Your Favorite Toy, lançado em abril, que marca o debut de estúdio do baterista Ilan Rubin.
Os ídolos de Grohl em 2000 ainda ditam o rock de 2026
A lista de Grohl não é uma declaração casual. Entre Beatles, Public Enemy, Bad Brains, Led Zeppelin e Pixies, há uma lógica invisível: a busca pela pureza musicalmente guerreira. Ele escolheu discos que não recuam diante do incômodo. O 10º lugar vai para Kyuss — Blues for the Red Sun (1992), um álbum que o próprio Grohl descreve como aquele que “mudou minha vida” aos 24 anos. O groove pesado, as batidas cruas, a recusa em ser comercial — são marcas que voltam em Your Favorite Toy, onde Foo Fighters recupera essa energia visceral que pareceu adormecida em discos recentes.
Frank Black — Frank Black (1992) ocupa o 9º lugar, e aqui está o primeiro ponto de ruptura: Grohl admirava a estranheza refratária ao mainstream. Ele mesmo observou que Black Francis tinha qualidades para ser estrela, mas a música era “tão peculiar a ponto de nunca poder ser traduzida para um grande público”. Esta é uma confissão oculta de Grohl: ele sempre soube que o caminho fácil não era o seu, mesmo quando as oportunidades comerciais batessem.
O 8º lugar, Mark Lanegan — The Winding Sheet (1990), revela outra camada. Grohl elogia a alma bruta, a intimidade acústica. É notável que Nirvana — onde Grohl tocava bateria — tenha colaborado neste disco. Cobain e Novoselic aparecem na gravação. Isso significa que a influência não era unidirecional: Grohl e seus colegas de Nirvana respiravam o mesmo ar que Lanegan, formando um ecossistema criativo em Seattle.
Punk estranho vs. rock de estádio: a contradição que define Grohl
Aqui está o conflito central da carreira de Grohl: ele adora o punk que ninguém entende (Pixies, Frank Black, Melvins) e simultaneamente construiu o Foo Fighters em estádios mundiais. A lista prova que isso não é hipocrisia — é arquitetura intencional. O 7º lugar, Pixies — Surfer Rosa (1988), é chamado por ele de “um dos álbuns mais influentes dos últimos anos”. Ele reconhece que o Nirvana “sempre fez questão que todos soubessem que estávamos apenas roubando dos Pixies”. Steve Albini produziu Surfer Rosa com som propositalmente cru, experimental. Nirvana quis Albini depois. Foo Fighters herdou essa obsessão por qualidade e originalidade.
Mas Grohl também escolheu Public Enemy — Yo! Bum Rush the Show (1987) para o 5º lugar. Hip-hop, política, Chuck D ao lado de Flavor Flav. Isso nunca apareceu nominalmente nos Foo Fighters, mas a atitude — música como ferramenta de discurso, nunca apenas entretenimento — está em toda parte.
O 6º lugar, Melvins — Gluey Porch Treatments (1987), é descrito como “uma milícia suja de metal tipo Black Sabbath que eles sabiam que todo mundo odiaria”. Grohl ama a recusa intencional. A música não está aí para agradar; está aí para irritar quem quer velocidade. Este é o dna que voltou em Your Favorite Toy: um álbum deliberadamente mais curto (36 minutos, o terceiro mais curto da discografia), denso, sem concessões ao refrão fácil.
Beatles e Led Zeppelin: o fundamento permanente
Os clássicos ocupam o topo da lista. Led Zeppelin — Coda (1982) está em 3º lugar, e The Beatles — The Beatles (1968, o álbum branco) em 1º lugar. Aqui, a admiração de Grohl é clara: “Led Zeppelin moldou completamente a maneira como eu toco bateria.” John Bonham é a referência literal. E o álbum branco dos Beatles? Grohl o chama de “atemporal”.
O que torna isso crucial em 2026 é que Grohl continua a aprender destes artistas não como histórico, mas como guia ativo. Os Foo Fighters entraram no Rock & Roll Hall of Fame em 2021. Ilan Rubin, o novo baterista (que foi membro do Nine Inch Nails, também no Hall), traz sua própria genealogia. Mas Grohl permanece o dirigente, e sua escuta — Beatles, Zeppelin, Melvins, Pixies — segue determinando as escolhas.
O 2º lugar fica para The B-52’s — The B-52’s (1979). Isso é intrigante porque nada em Foo Fighters soa como new wave art-pop dos anos 70. Grohl admite: “Eu era jovem e meus pais estavam dormindo. Músicas como ’52 Girls’, ‘Rock Lobster’… elas definitivamente abriram um mundo totalmente novo para mim”. A B-52’s não são metal, não são punk, não são os Beatles. São a prova de que Grohl nunca construiu seus gosto em silos. Ele come em todos os buffés do rock.
O que essa lista significa agora
Vinte e seis anos depois, a lista de 2000 não é apenas nostalgia. Your Favorite Toy ecoa esses discos: tem a densidão crua do Kyuss, a recusa em simplificar do Frank Black, o ritmo pesado dos Melvins. Quando Grohl escolhe Ilan Rubin — um baterista do calibre de Hall of Fame — em vez de “um baterista competente”, ele está reafirmando a regra aprendida em Surfer Rosa: qualidade sonora não é acessório, é a base.
Rock in Rio 2026 será o primeiro show da banda após o lançamento do novo disco. O setlist provavelmente incluirá clássicos do Foo Fighters (Everlong, All My Life, The Pretender), mas a energia será renovada pela redescoberta dessa qualidade bruta. Grohl dirá, como sempre disse, que os Foo Fighters são “apenas ladrões dos Pixies”. Não é falsa humildade. É verdade. E é por isso que dura.
Fonte: rollingstone.com.br