Matt Damon segue aberto a Jason Bourne, mas a franquia enfrenta o problema do roteiro

Matt Damon reafirmou estar aberto a um novo filme de Jason Bourne, mas sua disponibilidade traz à tona um problema mais profundo: a franquia carece de uma história que justifique seu retorno, não apenas da vontade de seus criadores em fazer mais um capítulo.

Em entrevista à revista Parade, o ator declarou: “Se você tiver alguma ideia, nos avise”, sugerindo que o maior obstáculo não é encontrar ator, estúdio ou orçamento, mas sim descobrir para onde levar a narrativa de um agente que já percorreu praticamente todos os arcos disponíveis em seu universo ficcional.

O entusiasmo não resolve o problema narrativo central

A declaração de Damon é otimista, mas revela uma tensão importante. Ele afirma que “estamos sempre tentando fazer mais um desses filmes porque nós adoramos”, sinalizando que o apego emocional à franquia permanece — porém, esse apego não equivale a uma visão criativa clara. A diferença é crucial. A franquia Jason Bourne já acumulou cinco filmes de protagonismo (sem contar o desvio com Jeremy Renner em O Legado Bourne, em 2012), e cada continuação exigiu um salto narrativo cada vez mais forçado: fuga, perseguição, memória, verdade, retorno, redenção parcial. O material começou a repetir ciclos em vez de expandir conflitos genuinamente novos.

A NBCUniversal adquiriu os direitos das franquias Jason Bourne e Treadstone pouco mais de um ano atrás, movimento que sinalizava apetite corporativo para expansão. Mas apetite de estúdio e disponibilidade de ator não são suficientes quando o público — e talvez os próprios roteiristas — começam a questionar se há ainda território narrativo a explorar.

Uma franquia que arrecadou US$ 1,64 bilhão sem saber para onde ir

Os números são inegáveis. Ao longo de duas décadas, desde A Identidade Bourne em 2002, a série acumulou mais de US$ 1,64 bilhão na bilheteria mundial, estabelecendo-se como uma das franquias de espionagem mais lucrativas do cinema. Mas a recente contratação de Damon aos cinemas veio acompanhada de uma lacuna de oito anos entre Jason Bourne (2016) e qualquer anúncio de sequência. Esse silêncio não foi mera paciência criativa — foi indecisão sobre como continuar sem repetir fórmulas desgastadas.

A série Treadstone, lançada em 2019 como tentativa de expandir o universo para outras perspectivas e personagens, durou apenas uma temporada. O experimento sugeriu que o público queria mais Jason Bourne, não alternativas dele. Agora, com os direitos centralizados sob uma única corporação (NBCUniversal), existe infraestrutura para fazer novos filmes, mas ainda não existe clareza sobre qual seria o ponto de partida criativo.

A frase de Damon — “se você tiver alguma ideia, nos avise” — funciona como um convite público que esconde uma admissão: mesmo o ator que encarnou o personagem durante vinte anos não tem uma visão específica para onde levá-lo a seguir.

O risco de continuar apenas pelo momentum do nome

Fazer mais um Jason Bourne por fazer é um perigo real. A indústria do cinema está repleta de sequências tardias que viveram do prestígio do título sem oferecer nada além de nostalgia reconfortante. Sem uma premissa que mude o jogo — seja um antagonista inédito, um conflito geopolítico contemporâneo que revele novas camadas do personagem, ou uma abordagem visual e narrativa radicalmente diferente — o filme corre o risco de ser visto como exercício mercadológico, não como evolução artística.

Damon tem razão em manter a porta aberta. Mas o fato de que ele precise convidar roteiristas a trazerem ideias sugere que a franquia ainda está em busca de seu próximo pilar criativo. A pergunta não é mais “Matt Damon vai voltar?”. É “alguém descobriu por que ele deveria voltar?”.

Fonte: observatoriodocinema.com.br

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