O retorno de Todo Mundo em Pânico aos cinemas após mais de uma década marca a volta dos irmãos Wayans à franquia que criaram — e revela um problema: a nova produção sacrifica a inteligência satírica que antes tornava as piadas sobre racismo e esteriótipos funcionais, rebaixando-se para agradar público que confunde liberdade para ofender com liberdade de expressão. O filme satiriza bem clássicos como Corra!, A Substância e M3GAN, mas se perde quando tenta reivindicar espaço para piadas sobre pessoas transgênero sem ter coragem de ir até o fim dessa provocação.
Por que Todo Mundo em Pânico sempre foi questionador de questões sociais?
A acusação de que Todo Mundo em Pânico seria “woke” ignora completamente o que a franquia sempre foi: crítica social disfarçada de comédia. Desde o primeiro filme, em 2000, as piadas sobre racismo estiveram presentes, porém embebidas em sutileza que as tornava funcionais. Os irmãos Wayans escreveram esses gags a partir de experiência vivida — como homens negros em Hollywood — o que dava legitimidade e profundidade ao humor. Racismo, brutalidade policial, esteriotipação de pessoas negras: tudo estava ali, mas requeria inteligência do espectador para ser completamente absorvido. Era paródia de verdade.
O problema não é que Todo Mundo em Pânico seja provocador. O problema é que em seu novo formato, o filme abdica da provocação inteligente para fazer piadas diretas, óbvias, pensadas para quem chegou ontem ao cinema e quer confirmation bias sobre preconceitos que já carrega.
O conflito entre sátira e rebaixamento: onde o novo filme se perde
A maior contradição do sexto filme está em como ele trata o personagem Jess, um homem trans na história. Os Wayans escalam Benny Zielke, uma pessoa trans não-binária, para fazer a piada. Mas aqui está o ponto que o filme não consegue resolver: se a intenção era atacar pessoas transgênero sem piedade, por que não escalar um ator ou atriz cisgênero? A resposta revela a hipocrisia — os irmãos Wayans são, fundamentalmente, “woke” demais para levar sua própria provocação até o final.
É como dizer que você vai fazer uma piada completamente ofensiva, mas depois contrata uma pessoa da comunidade que você está atacando. Isso não é coragem ou provocação; é ganhar a moeda das duas faces: a aprovação da comunidade LGBTQIA+ (por empregar uma pessoa trans) e simultaneamente fazer piadas que prejudicam essa mesma comunidade. No Brasil, país que há 15 anos consecutivos lidera o ranking de países que mais matam pessoas transgênero e travestis, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), essa dissonância é particularmente ofensiva.
O que funciona em Todo Mundo em Pânico?
Não é tudo ruim. As paródias de cinema funcionam bem — Corra!, A Substância, A Hora do Mal, Premonição, M3GAN, John Wick e até Guerreiras do K-Pop ganham tratamento satírico inteligente e divertido. Os conflitos geracionais entre personagens antigos e novos da franquia rendem boas risadas. A piada sobre a cinebiografia de Michael Jackson, especificamente, está bem executada. O filme tem seu mérito quando se concentra no que sempre fez bem: parodiar o cinema.
O problema é que esses momentos funcionais estão cercados por escolhas narrativas que buscam validação de um público que vê “luta contra o politicamente correto” como valor em si. E é aí que o filme se emburrece — não na presença de crítica social (Todo Mundo em Pânico sempre teve isso), mas na abdication da inteligência que tornava essa crítica palatável e eficaz.
A questão da tradução que quase arruinou o lançamento
Antes mesmo do filme chegar aos cinemas, a Paramount Pictures Brasil cometeu um erro de tradução que se tornou símbolo de todo o problema: a frase “I’m woke so I’m broke” foi traduzida para “Se eu lacro, eu lucro” — uma inversão completa do sentido. O texto original refere-se à ironia de tentar ser politicamente correto enquanto fica financeiramente endividado. A tradução brasileira inverteu isso para parecer um encorajamento ao ativismo, quando na verdade era crítica.
Após pressão nas redes sociais — incluindo dos próprios irmãos Wayans — a Paramount relançou o pôster corrigido com “Eu lacro, não lucro” e se desculpou com humor: “A gente achou que tava arrasando no inglês, e deixamos todo mundo em pânico!” O incidente é sintomático: mesmo os mecanismos de distribuição do filme não entendem completamente a intenção satírica, reduzindo-a a slogans vazios.
Sátira inteligente não precisa de rebaixamento
O chamado aos irmãos Wayans é simples: vocês sabem fazer comédia. Vocês provaram isso durante 26 anos. Desde o primeiro filme em 2000 até esse retorno, houve crescimento da capacidade de sátira — mas também uma tentação de agradar público cada vez mais interessado em ofensas diretas do que em crítica refinada. A escolha de se rebaixar é uma escolha, não uma necessidade.
Dá para fazer rir sem ofender. Dá para criticar cinema, cultura pop e comportamentos sociais mediante paródia inteligente — e Todo Mundo em Pânico ainda tem momentos onde prova que consegue fazer isso. O problema é quando o filme abre mão dessa precisão para ganhar aplausos de quem vê liberdade de expressão como sinônimo de liberdade para prejudicar. Nós conseguimos ser melhor do que já fomos — é só tentar um pouco.
Fonte: rollingstone.com.br
