
Peaky Blinders: O Homem Imortal marca o retorno de Tommy Shelby após anos de isolamento, mas, apesar do visual impressionante e da atmosfera sombria, o filme enfrenta dificuldades para equilibrar uma trama que mistura novos personagens e dilemas com o legado da série original. A narrativa se passa anos após o final da sexta temporada, quando Tommy deixa Birmingham após definir seus sucessores, encontrando-se agora isolado e lutando com os fantasmas de seu passado e as consequências de suas ações.
Dirigido por Tom Harper e escrito por Steven Knight, o longa estreou em circuito limitado no dia 6 de março de 2026 e chega à plataforma Netflix em 20 de março. Buscando encerrar uma era para os fãs que acompanharam a trajetória de Cillian Murphy como o icônico gângster, o filme evoca elementos clássicos da franquia, mas tropeça ao tentar integrar novas histórias e figuras antagonistas com o peso da longa história dos Shelby.
Qual o enredo principal de O Homem Imortal ?
Ambientado vários anos após o desfecho da temporada 6, o filme mostra Tommy vivendo em isolamento e escrevendo um livro, acompanhado apenas de Johnny Dogs. Apesar da distância, ele permanece assombrado pelos fantasmas daqueles cuja morte sente carregar em seus ombros. Novos espectros, vivos e mortos, também povoam sua consciência, ampliando o cenário de remorso e conflito interno. Quando é chamado para proteger seu filho Duke, a trama destaca a temática do legado sombrio entre gerações.
Por que o filme tropeça na construção dos personagens?
Barry Keoghan entrega uma performance intensa como Duke, filho de Tommy, que carrega a raiva e imprevisibilidade de quem foi abandonado. No entanto, a relação entre pai e filho parece superficial, pois o filme tem pouco espaço para desenvolver esse vínculo que sustenta o arco central.
Além disso, os vilões interpretados por Tim Roth (Beckett) e Rebecca Ferguson (Kaulo) aparecem como antagonistas com motivações pouco aprofundadas. Beckett, um simpatizante nazista, atua principalmente na superfície, explorando a fragilidade emocional de Duke e sua sede de poder sem complexidade suficiente. Kaulo, apesar da boa atuação, carece de desenvolvimento, deixando seu peso dramático menor que o desejado para um filme que pretende encerrar uma fase tão importante.
Como o filme dialoga com a história original da série?
Com uma abordagem visual que lembra uma extensão da sexta temporada, O Homem Imortal traz de volta a essência brutal da saga dos Shelby, incluindo o olhar sobre a cultura cigana e a espiritualidade familiar, nuances que oferecem estabilidade emocional principalmente através de Ada Thorne, papel de Sophie Rundle. O início do filme se destaca como uma narrativa de fantasmas com forte carga emocional, o que estabelece um tom apropriado para a jornada de Tommy.
Apesar disso, muitos dos ganchos deixados no final da sexta temporada são ignorados ou relegados a segundo plano. O filme parece sobrecarregado, com muitas ideias e personagens sem o devido espaço para amadurecer. Essa dinâmica prejudica a densidade dramática, principalmente em grandes momentos de tensão que acabam soando menos impactantes do que poderiam.
O que esperar do clímax e suas consequências?
O desfecho segue a tradição da franquia, entregando cenas de ação explosivas e reviravoltas típicas da série. Ainda assim, a falta de um núcleo afetivo bem estruturado e a ausência de personagens tão carismáticos quanto os da primeira temporada fazem com que o impacto emocional fique aquém do esperado. A tensão não alcança seu auge por conta dessa lacuna na construção de vínculos prévios, sobretudo entre Tommy e Duke.
Além disso, a tentativa de abordar temas como o fardo dos pecados paternos e a transformação de Duke em um “monstro” é frágil, pois o roteiro falha ao desenvolver ligações anteriores necessárias para que a narrativa soe convincente e ressoe mais intensa.
O formato do filme foi adequado para a conclusão da história?
O Homem Imortal evidencia os limites da proposta cinematográfica para fechar um universo tão complexo quanto o de Peaky Blinders. Sua duração de 112 minutos e formato de longa-metragem restringem o desenvolvimento das múltiplas camadas que a série construiu ao longo de seis temporadas.
Um formato episódico, com seis episódios de aproximadamente uma hora, poderia ter proporcionado exploração mais aprofundada dos conflitos internos, maior construção de personagens e do enredo, trazendo mais tensão e humanidade aos antagonismos. Assim, a narrativa teria espaço para respirar e tornar seus momentos-chave mais palpáveis e memoráveis.
O legado de Tommy Shelby e o que o filme representa
Apesar das falhas narrativas, é impossível não se impressionar com o retorno de Cillian Murphy à pele de Tommy Shelby. Seu controle do personagem permanece admirável, infundindo a tela com o carisma tenso e sombrio que o tornou uma das figuras mais marcantes da televisão moderna.
O filme recupera com competência os elementos mais emblemáticos de Peaky Blinders: o estilo único da gangue, os embates pelo poder, a religiosidade cigana e a atmosfera brutal de Birmingham. Esses detalhes, somados à direção de arte impecável e à fotografia cinematográfica, conferem ao projeto uma beleza visual que dialoga com o que os fãs apreciaram na série.
Um dos momentos mais impactantes ocorre quando Tommy retorna a Birmingham e encara sua antiga comunidade, reforçando que, por mais que seja um homem marcado pela maldição e pela violência, sempre foi o gangster daquela cidade – um anti-herói com um coração menos gelado do que ele mesmo acreditava.
Ficha Técnica e Elenco Principal
- Diretor: Tom Harper
- Roteirista: Steven Knight
- Duração: 112 minutos
- Lançamento: 6 de março de 2026 (limitado nos cinemas), 20 de março de 2026 (Netflix)
- Elenco:
- Cillian Murphy – Tommy Shelby
- Barry Keoghan – Duke Shelby
- Tim Roth – Beckett
- Rebecca Ferguson – Kaulo
- Sophie Rundle – Ada Thorne
Peaky Blinders: O Homem Imortal oferece, acima de tudo, uma narrativa visualmente deslumbrante que homenageia a complexa trajetória de Tommy Shelby. Contudo, para quem busca um encerramento à altura da série, a experiência pode parecer truncada e com potencial desperdiçado, principalmente em seus novos personagens e conflitos.
Assim, o filme funciona melhor como um complemento para os fãs ávidos do universo dos Shelby do que como ponto final definitivo para a saga. Com sua estreia na Netflix, ficará ao alcance de um público amplo, que poderá revisitar e revisitar essa história de poder, culpa e família.
Para quem deseja entender as nuances dessa narrativa, a produção evidencia a importância de um formato que permita o aprofundamento necessário em histórias densas como essa, um desafio cada vez mais presente em adaptações de séries para o cinema, especialmente em histórias com ampla base de fãs e rica mitologia interna.
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