The Testaments, o spin-off de The Handmaid’s Tale que chegou ao Hulu, fez uma escolha audaciosa e brutal no episódio 9: em vez de resgatar Becka Grove (interpretada por Mattea Conforti) de um destino amargo, a série a empurra deliberadamente para o mesmo abismo que a personagem dos livros de Margaret Atwood ocupava. E isso não é acidente narrativo — é decisão editorial consciente que redefine o que The Testaments realmente quer contar.
O episódio “Marat Sade” funcionou como ponto de ruptura. Becka, apresentada inicialmente como uma jovem traumatizada mas esperançosa, sofre transformação que a leva de vítima para agente de retribuição violenta. Uma decisão emocional dispara consequências irreversíveis. A série não nos dá redenção — nos dá ciclo.
O que Becka descobre sobre o pai adotivo que a quebra
A mudança em Becka começa quando ela descobre que Dr. Grove, seu pai adotivo, fez algo terrível a Agnes Jemima (interpretada por Chase Infiniti), sua melhor amiga e colega na academia de meninas de Gilead. Essa revelação não é apenas um plot twist — é o detonador que transforma Becka de uma garota presa em traumatismo para alguém que age, que mata, que se torna instrumento de vingança.
O problema é que essa ação tem preço. Becka está presa em um noivado arranjado com Garth, filho de um Comandante poderoso, e suas verdadeiras afeições estão em outra pessoa. Quando a verdade sobre o pai adotivo vem à tona, Becka perde a última razão para conter sua raiva.
Por que The Testaments recusa a redenção de personagens dos livros
Aqui está o diferencial crítico: The Testaments não está tentando “consertar” o que Margaret Atwood fez com esses personagens. Está dobrando a aposta. A série reconhece que em Gilead não há escape narrativo — há apenas repetição de trauma em ciclos cada vez mais violentos.
Becka é presa em uma engrenagem que não a deixa sair viva. Sua paixão por Agnes, seu ódio do pai adotivo, sua tentativa de fazer justiça — tudo isso leva a um destino tão fechado quanto era nos livros. A série não oferece brechas hollywodianas de salvação.
O noivado arranjado que torna Becka refém de seu próprio corpo
Garth não é um vilão — é um instrumento de Gilead. Ele é secretamente parte de Mayday, a resistência, mas isso não salva Becka. Nem salva seu relacionamento. Ela é uma noiva que não quer estar ali, apaixonada por alguém que não pode ter, e manipulada por um sistema que transforma afeto em combustível para destruição.
O noivado é a jaula. E a série entende que jaulas em Gilead não se abrem com chave ou revolução pessoal — se abrem quando o corpo já não tem mais valor.
Becka em The Testaments confirma que os livros estavam certos
O que torna o episódio 9 tão perturbador é sua conclusão silenciosa: Margaret Atwood previu corretamente. Personagens como Becka não escapam de Gilead. Elas são consumidas por ele. A série não está sendo pessimista — está sendo honesta com a lógica interna do mundo.
The Testaments na série de televisão não negocia com happy endings falsos. Ela respira a mesma ar opressivo dos livros e chega às mesmas conclusões: algumas pessoas simplesmente não sobrevivem inteiras a regimes totalitários.
Por que isso muda como vemos The Testaments como adaptação
Muitas séries tentam “melhorar” o material original. The Testaments faz o oposto — valida cada morte, cada sofrimento, cada ciclo de trauma que Atwood desenhava. Ao reproduzir o destino de Becka, a série não está sendo fiel por fidelidade — está fazendo a pergunta mais incômoda possível: e se o pessimismo literário estivesse certo?
Isso é o que separa The Testaments de adaptações genéricas. Ela não oferece catarsis fácil. Oferece confirmação brutal de que em mundos como Gilead, sua bondade, seu amor, sua resistência pessoal são apenas combustível para máquinas que já estão prontas para consumi-lo.
O destino de Becka não é um acidente narrativo do episódio 9 — é o ponto de chegada inevitável de uma série que entendeu que The Handmaid’s Tale nunca foi sobre esperança individual. Foi sobre estruturas que aniquilam indivíduos.